{"id":1013,"date":"2019-12-18T09:51:49","date_gmt":"2019-12-18T12:51:49","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1013"},"modified":"2019-12-18T09:51:49","modified_gmt":"2019-12-18T12:51:49","slug":"campos-de-murundus-pouco-conhecidos-e-muito-ameacados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1013","title":{"rendered":"Campos de murundus: Pouco conhecidos e muito amea\u00e7ados"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pequenos animais que vivem no solo desempenham papeis de grande import\u00e2ncia, os quais, na maioria das vezes, nem mesmo percebemos. Desde 1881, o grande naturalista Charles Darwin j\u00e1 havia observado a import\u00e2ncia das minhocas para a forma\u00e7\u00e3o dos solos e estabelecimento de diferentes vegeta\u00e7\u00f5es. Desde ent\u00e3o, p\u00f4de-se perceber que os distintos animais presentes no solo n\u00e3o s\u00e3o apenas habitantes, s\u00e3o tamb\u00e9m agentes fundamentais para diversos processos que ocorrem ali, fazendo que esse solo seja um complexo ecossistema. A constante atividade desses seres ao logo do tempo faz com que o ambiente e os elementos que o comp\u00f5em (tipo de solo, nutrientes do solo, vegeta\u00e7\u00e3o, etc.) sejam din\u00e2micos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os campos de murundus s\u00e3o exemplos claros da import\u00e2ncia da atividade de pequenos animais na forma\u00e7\u00e3o de um ecossistema diferenciado. Murundus s\u00e3o montes de terra que possuem forma arredondada, distribu\u00eddos ao longo de terrenos mais baixos, periodicamente alagados, encontrados em algumas paisagens do Cerrado.  Esses \u201cmontes de terra\u201d s\u00e3o formados por coloniza\u00e7\u00f5es sucessivas de cupins, correspondendo a ninhos ativos ou n\u00e3o, que resistem aos processos de eros\u00e3o do solo. A eros\u00e3o, processo de carreamento de part\u00edculas do solo dos locais mais altos para os mais baixos, tenderia a nivelar a paisagem se n\u00e3o fosse a atividade intensa dos cupins em transportar solo de baixo para a superf\u00edcie. Esse comportamento contribui para o aumento dos murundus, e consequentemente, para o aumento do territ\u00f3rio de forrageamento dos cupins durante os per\u00edodos de alagamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo de forma\u00e7\u00e3o dos murundus \u00e9 din\u00e2mico, mesmo ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o de grandes montes de terra, a atividade desses pequenos animais n\u00e3o para, podendo superar 3 metros de altura. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Do ponto de vista ecol\u00f3gico, os murundus s\u00e3o ecossistemas muito interessantes, pois se diferem dos ambientes circundantes, tanto pela constitui\u00e7\u00e3o dos solos quanto pela vegeta\u00e7\u00e3o e fauna que os habitam. Nos espa\u00e7os entre murundus predominam solos com poucos nutrientes, com maior capacidade em reter \u00e1gua e maior proximidade com o len\u00e7ol fre\u00e1tico, o qual pode ser encontrado com um metro de profundidade, mesmo durante a esta\u00e7\u00e3o seca. Nesses locais s\u00e3o encontradas esp\u00e9cies vegetais campestres resistentes ao per\u00edodo de alagamento, sendo ausente \u00e1rvores e arbustos. J\u00e1 nos murundus, os solos s\u00e3o mais drenados, livres do alagamento sazonal e com maior teor de nutrientes, resultantes do aporte de materiais dos cupins e da ciclagem de uma vegeta\u00e7\u00e3o mais vigorosa, como \u00e1rvores e arbustos do Cerrado. Durante os per\u00edodos de alagamento, os murundus tornam-se verdadeiras ilhas (Figura 2), capazes de abrigar plantas lenhosas que normalmente s\u00e3o intolerantes \u00e0 satura\u00e7\u00e3o h\u00eddrica do solo, al\u00e9m dos cupins e outros animais, mantendo-os a salvos dos excessos de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os murundus espalham-se pela paisagem conferindo-lhe um aspecto de micro relevos ou pequenos \u201cmares de morros\u201d, o que proporciona uma beleza peculiar. Al\u00e9m da beleza paisag\u00edstica, os campos de murundus s\u00e3o importantes por comportarem uma vasta diversidade de esp\u00e9cies do Cerrado, no entanto, tamb\u00e9m representam um dos ecossistemas mais amea\u00e7ados pela antropiza\u00e7\u00e3o. Atualmente, com a expans\u00e3o das fronteiras agr\u00edcolas, esses campos v\u00eam sofrendo um alto grau de perturba\u00e7\u00e3o com a implanta\u00e7\u00e3o de drenos para o escoamento superficial da \u00e1gua do solo e nivelamento da superf\u00edcie, tornando-os prop\u00edcios para o desenvolvimento da agricultura extensiva. O risco iminente j\u00e1 foi reconhecido pelo Estado de Goi\u00e1s, onde os campos de murundus j\u00e1 s\u00e3o considerados \u00c1reas de Preserva\u00e7\u00e3o Permanente (Lei estadual n\u00ba 16.513\/2007).  No entanto, fora desse Estado, os campos de murundus continuam sendo alvos do avan\u00e7o agr\u00edcola sobre o Cerrado. Por esse motivo, a prote\u00e7\u00e3o desses ecossistemas \u00e9 essencial para que continuem embelezando as paisagens j\u00e1 bastante degradadas, e preservando as esp\u00e9cies, tanto da flora como da fauna do Cerrado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cibele de C\u00e1ssia Silva<\/strong> \u00e9 bi\u00f3loga e mestranda em Ecologia e Evolu\u00e7\u00e3o pela UFG <strong>Daniel Meira Arruda<\/strong> \u00e9 bi\u00f3logo, mestre e doutorando em Bot\u00e2nica pela Universidade Federal de Vi\u00e7osa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pequenos animais que vivem no solo desempenham papeis de grande import\u00e2ncia, os quais, na maioria das vezes, nem mesmo percebemos. Desde 1881, o grande naturalista Charles Darwin j\u00e1 havia observado a import\u00e2ncia das minhocas para a forma\u00e7\u00e3o dos solos e estabelecimento de diferentes vegeta\u00e7\u00f5es. 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