{"id":1015,"date":"2019-12-19T18:49:55","date_gmt":"2019-12-19T21:49:55","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1015"},"modified":"2019-12-19T18:49:55","modified_gmt":"2019-12-19T21:49:55","slug":"as-plantas-que-vivem-sobre-o-ferro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1015","title":{"rendered":"As plantas que vivem sobre o ferro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As diferentes esp\u00e9cies e formas de vida da vegeta\u00e7\u00e3o que existem ao nosso redor est\u00e3o intimamente relacionadas com o tipo de solo em que est\u00e3o estabelecidas. A fertilidade e a profundidade do solo selecionam as plantas que v\u00e3o ocupar cada ambiente. Geralmente, onde h\u00e1 florestas os solos s\u00e3o profundos e f\u00e9rteis, pois as \u00e1rvores s\u00e3o exigentes em nutrientes e em uma \u00e1rea maior de solo para expandir suas ra\u00edzes, indispens\u00e1veis para a sustenta\u00e7\u00e3o do tronco. Por outro lado, em solos rasos ou mais pobres em nutrientes estabelecem formas de vida de menor porte e adaptadas a essas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"556\" height=\"385\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Sem-t\u00edtulo-5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1016\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Sem-t\u00edtulo-5.png 556w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Sem-t\u00edtulo-5-300x208.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/Sem-t\u00edtulo-5-433x300.png 433w\" sizes=\"auto, (max-width: 556px) 100vw, 556px\" \/><figcaption>Fig 1- Campo rupestre.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentes tipos de vegeta\u00e7\u00e3o, em resposta a diferentes solos, podem ser observadas na Amaz\u00f4nia, Mata Atl\u00e2ntica e Cerrado. No Cerrado existem vegeta\u00e7\u00f5es campestres (campo limpo), sav\u00e2nicas (cerrado sensu stricto) e at\u00e9 florestais (cerrad\u00e3o); classificadas em fun\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito dominante, da composi\u00e7\u00e3o flor\u00edstica e das propriedades dos substratos, que v\u00e3o de rasos e pobres nos campos a profundos e ricos nas florestas. As vegeta\u00e7\u00f5es campestres caracterizam-se por serem mais abertas, com predomin\u00e2ncia de gram\u00edneas e poucas esp\u00e9cies lenhosas. As fitofisionomias sav\u00e2nicas s\u00e3o dominantes na paisagem e ocupam cerca de 65% da \u00e1rea do Cerrado. A vegeta\u00e7\u00e3o do cerrado sensu stricto \u00e9 formada por um estrato arbustivo-arb\u00f3reo com caule suberoso, ramificado e retorcido e outro herb\u00e1ceo-graminoso e cont\u00ednuo. As vegeta\u00e7\u00f5es florestais apresentam esp\u00e9cies lenhosas com galhos tortuosos, distribu\u00eddas de forma mais adensada, com alturas variando de seis a oito metros. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"492\" height=\"321\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1017\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/2.png 492w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/2-300x196.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/2-460x300.png 460w\" sizes=\"auto, (max-width: 492px) 100vw, 492px\" \/><figcaption>Fig 2- Vegeta\u00e7\u00e3o de canga.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitos locais no Brasil ocorrem os afloramentos rochosos, como pontos isolados no espa\u00e7o caracterizados pelo solo raso ou ausente, incluindo v\u00e1rios habitats relacionados com caracter\u00edsticas da rocha.  A vegeta\u00e7\u00e3o associada a afloramentos rochosos sobre topos de serras e chapadas de altitudes superiores a 900 m e em rochas quartz\u00edticas ou aren\u00edticas \u00e9  chamada \u201ccampo rupestre\u201d (Figura 1), quando ocorre acima de 1500m e em afloramentos de rochas de granito\/gnaisse \u00e9 denominada campo de altitude (esp\u00e9cies t\u00edpicas desses campos s\u00e3o as Vellozia spp. (canela-de-ema) e Paepalanthus spp. (sempreviva)). Outros afloramentos que podem ser observados nos diferentes biomas s\u00e3o os de rochas ferruginosas, que apresentam elevada concentra\u00e7\u00e3o de ferro.  No Brasil estima-se que a cobertura total desses ambientes \u00e9 de 10000 hectares. Em Minas Gerais os campos ferruginosos est\u00e3o concentrados principalmente no Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero, com uma \u00e1rea de aproximadamente 7.200km2. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"498\" height=\"343\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1018\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3.png 498w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3-300x207.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/3-436x300.png 436w\" sizes=\"auto, (max-width: 498px) 100vw, 498px\" \/><figcaption>Fig 3. Ipomoea cavalcantei, esp\u00e9cie que ocorre apenas em campo rupestre da Amaz\u00f4nia.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vegeta\u00e7\u00e3o associada \u00e0 afloramentos de rochas ferruginosas (tamb\u00e9m se inclui o conceito de Campos Rupestres) d\u00e1-se o nome de \u201cCampos ferruginosos\u201d ou \u201cVegeta\u00e7\u00e3o de canga\u201d (Figura 2). A alta concentra\u00e7\u00e3o de metais pesados no solo \u00e9 t\u00f3xica para muitas esp\u00e9cies vegetais, exigindo toler\u00e2ncia ao ferro para que consigam se adaptar ao ambiente e manter sua sobreviv\u00eancia nessas condi\u00e7\u00f5es. No Brasil, tais campos ocorrem principalmente no Quadril\u00e1tero Ferr\u00edfero e Tri\u00e2ngulo Mineiro (MG), no dom\u00ednio do Cerrado, e na Serra de Caraj\u00e1s (PA), no dom\u00ednio da Floresta Amaz\u00f4nica. A vegeta\u00e7\u00e3o muda completamente em fun\u00e7\u00e3o da natureza da rocha, sendo diretamente influenciada pela disponibilidade e ac\u00famulo de nutrientes. Sendo assim, o cerrado rupestre, por apresentar vegeta\u00e7\u00f5es inseridas entre as fendas das rochas, onde h\u00e1 um ac\u00famulo maior de nutrientes, possui aspecto de savana (estrato herb\u00e1ceo e\/ou arbustivo-arb\u00f3reo), enquanto que em campos ferruginosos h\u00e1 menor propor\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies arb\u00f3reas devido ao menor ac\u00famulo de nutrientes nas reentr\u00e2ncias das rochas. Os dom\u00ednios em que os campos ferruginosos est\u00e3o inseridos influenciam-nos diretamente. Sobre a canga de Caraj\u00e1s ocorre grande riqueza de esp\u00e9cies distintas, como Ipomoea carajasensis, I. cavalcantei (Figura 3) e I. marabaenses, devido a presen\u00e7a da floresta amaz\u00f4nica circundando-a e do clima diferenciado ali existente. J\u00e1 em outras cangas do pa\u00eds, a riqueza de esp\u00e9cies \u00e9 menor: Lychnophora pinaster (Figura 4) ocorre apenas em cangas de Minas Gerais, Arthrocereus glaziovii s\u00f3 ocorre no quadril\u00e1tero ferr\u00edfero, e h\u00e1 esp\u00e9cies comuns de afloramentos rochosos de todo o Brasil como Vellozia compacta (Figura 5), Tibouchina multiflora e Dasyphyllum candolleanum. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"389\" height=\"517\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1019\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/4.png 389w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/4-226x300.png 226w\" sizes=\"auto, (max-width: 389px) 100vw, 389px\" \/><figcaption>Fig 4- Lychnophora pinaster ocorre apenas em cangas de MG.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, cerca de 97% da reserva de ferro do pa\u00eds est\u00e1 presente nessas \u00e1reas, o que faz com que a conserva\u00e7\u00e3o desses ambientes seja afetada constantemente em fun\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas de minera\u00e7\u00e3o muito comuns nesses locais. Apesar disso, a conserva\u00e7\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel, dada \u00e0 singularidade desses ambientes, tanto em termos estruturais quanto flor\u00edsticos, quanto por apresentarem n\u00edvel elevado de endemismo de v\u00e1rias esp\u00e9cies. Os campos rupestres s\u00e3o considerados centros de diversidade de fam\u00edlias como Eriocaulaceae, Xyridaceae e Velloziaceae, e de v\u00e1rios g\u00eaneros de Melastomataceae, Ericaceae e Asteraceae. Al\u00e9m da distribui\u00e7\u00e3o restrita, s\u00e3o pouqu\u00edssimas as unidades de conserva\u00e7\u00e3o que cont\u00e9m essas comunidades, sendo o Parque Estadual da Serra do Rola Mo\u00e7a, pr\u00f3ximo de Belo Horizonte, a mais destacada.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"490\" height=\"284\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/5.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1020\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/5.png 490w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/5-300x174.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 490px) 100vw, 490px\" \/><figcaption>Fig 5- Vellozia compacta, esp\u00e9cie comum dos campos rupestres brasileiros.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fernanda de F\u00e1tima Santos Soares<\/strong>  \u00e9 bi\u00f3loga e mestranda na Unicamp na \u00e1rea de Bot\u00e2nica; <strong>R\u00fabia Santos Fonseca<\/strong> \u00e9 bi\u00f3loga, mestre e doutora em Bot\u00e2nica pela UFV. Atualmente \u00e9 professora tempor\u00e1ria da UFV, campus Rio Parana\u00edba. Desenvolve pesquisas na \u00e1rea de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As diferentes esp\u00e9cies e formas de vida da vegeta\u00e7\u00e3o que existem ao nosso redor est\u00e3o intimamente relacionadas com o tipo de solo em que est\u00e3o estabelecidas. A fertilidade e a profundidade do solo selecionam as plantas que v\u00e3o ocupar cada ambiente. 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