{"id":1023,"date":"2020-01-14T08:04:00","date_gmt":"2020-01-14T11:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1023"},"modified":"2020-01-17T08:09:25","modified_gmt":"2020-01-17T11:09:25","slug":"como-a-natureza-semeia-suas-sementes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1023","title":{"rendered":"Como a natureza semeia suas sementes?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os organismos da natureza s\u00e3o encontrados em determinados locais porque eles se deslocaram at\u00e9 l\u00e1. Esse conceito \u00e9 valido at\u00e9 para esp\u00e9cies s\u00e9sseis, ou seja, que n\u00e3o se locomovem e vivem fixas, como as plantas. Dispers\u00e3o e migra\u00e7\u00e3o s\u00e3o termos utilizados para descrever deslocamentos de organismos em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es para a sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies. A dispers\u00e3o est\u00e1 relacionada ao distanciamento aleat\u00f3rio dos organismos entre si, enquanto a migra\u00e7\u00e3o a movimentos direcionais em massa de um grande n\u00famero de indiv\u00edduos de uma esp\u00e9cie de um local para outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para se dispersarem as plantas utilizam seus di\u00e1sporos, ou unidades de dispers\u00e3o, que s\u00e3o os frutos e sementes. A dispers\u00e3o dos di\u00e1sporos para longe do seu local de origem \u00e9 um processo fundamental no ciclo de vida das plantas, pois evita a competi\u00e7\u00e3o entre as plantas jovens e a elevada preda\u00e7\u00e3o pr\u00f3ximo \u00e0 planta-m\u00e3e. Al\u00e9m disso, se as sementes forem dispersas por uma \u00e1rea ampla, maior ser\u00e1 a chance de encontrarem locais favor\u00e1veis \u00e0 sua germina\u00e7\u00e3o e estabelecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devido aos benef\u00edcios da dispers\u00e3o, as plantas desenvolveram muitas adapta\u00e7\u00f5es que favorecem a dissemina\u00e7\u00e3o dos seus frutos e sementes. As caracter\u00edsticas dos frutos e sementes trazem pistas sobre a forma de dispers\u00e3o de uma esp\u00e9cie. Certas plantas espalham suas sementes sozinhas (autocoria), como \u00e9 o caso da maria-sem-vergonha ou beijo, cientificamente conhecida como Impatiens walleriana, pois seu nome cient\u00edfico lembra a palavra \u201cimpaciente\u201d em refer\u00eancia \u00e0 c\u00e1psula de sementes que explode ao menor contato, espalhando as sementes nos arredores. Outras dependem de agentes dispersantes, como o vento (anemocoria); para isso as esp\u00e9cies produzem frutos e sementes leves e aerodin\u00e2micas, sendo aladas ou plumosas, como \u00e9 o caso do dente-de-le\u00e3o. A dispers\u00e3o tamb\u00e9m pode ocorrer pela \u00e1gua (hidrocoria), por gotas de chuva, enxurradas, ou rios e mares, por meio de di\u00e1sporos flutuantes e resistentes ao excesso de umidade, como o coco-da-ba\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os animais tamb\u00e9m realizam dispers\u00e3o, que \u00e9 denominada zoocoria. A zoocoria pode ocorrer externamente e de forma involunt\u00e1ria (epizoocoria), como \u00e9 o caso dos carrapichos, que se aderem ao pelo dos animais e \u00e0s nossas roupas; nesse caso os animais n\u00e3o se beneficiam, pois esses di\u00e1sporos n\u00e3o s\u00e3o comest\u00edveis. Por outro lado, a zoocoria pode ocorrer tamb\u00e9m via trato digestivo dos animais (endozoocoria). Nesse caso, os animais consomem os frutos e defecam as sementes inteiras e prontas para germinar; essas sementes, no entanto, devem ter um tegumento resistente para suportar a acidez do estomago e a passagem pelo trato digestivo. A endozoocoria promove uma intera\u00e7\u00e3o mutual\u00edstica entre os animais e as plantas, dessa forma, os animais recebem alimento e as plantas s\u00e3o semeadas por grandes dist\u00e2ncias. Al\u00e9m disso, para algumas plantas a passagem da semente no trato digestivo do animal \u00e9 indispens\u00e1vel para sua germina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frequ\u00eancia dos diferentes modos de dispers\u00e3o varia entre as forma\u00e7\u00f5es vegetais, com predom\u00ednio de autocoria e anemocoria em vegeta\u00e7\u00f5es abertas, como os campos, onde o vento atua fortemente, e predom\u00ednio de zoocoria em florestas. Em algumas florestas tropicais mais de 90% das plantas apresentam frutos dispersos por animais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As caracter\u00edsticas dos di\u00e1sporos determinam qual o grupo de animais vai ser atra\u00eddo por estes, e assim qual ser\u00e1 o dispersor.  Peixes como o pacu e o tambaqui se alimentam de frutos que caem de \u00e1rvores das beiras de rios. Alguns lagartos e tartarugas se alimentam de frutos que apresentam cheiro e colora\u00e7\u00e3o forte e que est\u00e3o pr\u00f3ximos ao solo ou caem quando maduros. Os frutos dispersados por mam\u00edferos apresentam cores vivas e muitas vezes cheiros atrativos, como por exemplo, a lobeira, que \u00e9 consumida e dispersa pelo lobo-guar\u00e1. O lobo-guar\u00e1 \u00e9 dependente da lobeira e sem os seus frutos ele \u00e9 afetado por complica\u00e7\u00f5es renais causadas por vermes. Os morcegos frug\u00edvoros s\u00e3o os mam\u00edferos mais importantes no processo de dispers\u00e3o, diferente dos demais mam\u00edferos, os frutos dispersos por morcegos n\u00e3o apresentam cores chamativas, mas possuem odor forte de mofo, ran\u00e7oso ou de fermenta\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os animais frug\u00edvoros s\u00e3o os jardineiros das nossas matas, pois semeiam as sementes ao longo dos seus caminhos. Dentre os frug\u00edvoros destacam-se as aves, pois elas s\u00e3o respons\u00e1veis pela dispers\u00e3o da maioria das plantas. O estudo das aves (ornitologia) tem enfatizado a rela\u00e7\u00e3o entre as aves frug\u00edvoras e as plantas que fornecem esses frutos. Muitas plantas atraem as aves com frutos pequenos em grandes quantidades, exibindo cores vistosas e polpas carnosas e suculentas, como a pitanga do cerrado, o murici e a erva de passarinho, esta s\u00f3 germina ap\u00f3s a passagem pelo trato digestivo das aves. Dentre as aves dispersoras destacam-se o jacu, o sanha\u00e7o e o sabi\u00e1- laranjeira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dispers\u00e3o gera consequ\u00eancias ecol\u00f3gicas grandiosas; ela mant\u00e9m o equil\u00edbrio entre as popula\u00e7\u00f5es de plantas e animais, contribuindo para a diversidade biol\u00f3gica e para a cont\u00ednua din\u00e2mica da comunidade. A remo\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de planta pode afetar muitos frug\u00edvoros de uma comunidade, que dependiam desse recurso para sua sobreviv\u00eancia. Consequentemente, a elimina\u00e7\u00e3o dos frug\u00edvoros tem efeitos negativos no estabelecimento de novas plantas. Dessa forma, a a\u00e7\u00e3o da fauna frug\u00edvora garante a regenera\u00e7\u00e3o natural e a sobreviv\u00eancia das nossas matas ap\u00f3s altera\u00e7\u00f5es naturais, como a queda de uma \u00e1rvore, ou antr\u00f3picas, como os desmatamentos e queimadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>C\u00e1ssio Cardoso Pereira<\/strong> \u00e9 bi\u00f3logo graduado pela Universidade Federal de Vi\u00e7osa, campus de Rio Parana\u00edba. <strong>R\u00fabia Santos Fonseca<\/strong> \u00e9 bi\u00f3loga, mestre e doutora em Bot\u00e2nica pela UFV. Atualmente \u00e9 professora tempor\u00e1ria da UFV, campus Rio Parana\u00edba. Desenvolve pesquisas na \u00e1rea de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os organismos da natureza s\u00e3o encontrados em determinados locais porque eles se deslocaram at\u00e9 l\u00e1. 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