{"id":1042,"date":"2020-04-21T11:03:29","date_gmt":"2020-04-21T14:03:29","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1042"},"modified":"2020-04-21T11:03:29","modified_gmt":"2020-04-21T14:03:29","slug":"muito-mais-que-uma-iguaria-culinaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1042","title":{"rendered":"Muito mais que uma iguaria culin\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">\u00c9 muito prov\u00e1vel que voc\u00ea j\u00e1 tenha tido contato com um grupo de animais muito apreciado como alimento para um grande n\u00famero de povos, o peixe. Com uma varinha, anzol e minhoca (e um pouco de paci\u00eancia) voc\u00ea consegue ir em um riacho ou lago e fazer uma boa pescaria. Seja um pequeno lambari (ou piaba), um bagre ou at\u00e9 mesmo um surubim ou dourado, os peixes s\u00e3o uma boa fonte de prote\u00ednas e demais nutrientes importantes. Cada brasileiro consome em m\u00e9dia cerca de 9 kg de peixe por ano. Parte destes peixes consumidos vem do extrativismo, direto da natureza, e uma parte consider\u00e1vel atualmente vem da aquacultura (ou aquicultura). A til\u00e1pia \u00e9 um bom exemplo de peixe utilizado em aquicultura, embora n\u00e3o seja um peixe originalmente brasileiro, tampouco das Am\u00e9ricas. Na verdade, \u00e9 um peixe de origem africana que foi introduzido no Brasil atrav\u00e9s de cultivo e hoje pode ser encontrado habitando nossos lagos (seu habitat preferido \u00e9 o de \u00e1guas calmas ou l\u00eanticas, como o de a\u00e7udes, lagoas e lagos).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"385\" height=\"219\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1043\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/1.png 385w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/1-300x171.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 385px) 100vw, 385px\" \/><figcaption>Fonte: phontlife.blogspot.com.br\/2012\/08\/tubaroes-baleia-fotografo-mostra.html<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas al\u00e9m da pescaria, e daqueles belos peixes de aquario\ufb01lia, o que mais voc\u00ea sabe sobre os peixes?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de mais nada, peixes s\u00e3o vertebrados aqu\u00e1ticos. Habitam todo tipo de ambiente aqu\u00e1tico, desde corredeiras ou lagos de \u00e1guas mornas at\u00e9 rios e lagos gelados de \u00e1gua doce; povoam desde recifes de corais at\u00e9 regi\u00f5es abissais do fundo do mar. Alguns podem viver tanto em \u00e1gua doce quanto em \u00e1gua salgada, como os salm\u00f5es e esturj\u00f5es. S\u00e3o altamente dependentes do ambiente aqu\u00e1tico, especialmente para reprodu\u00e7\u00e3o. Apesar da maioria dos peixes respirar por br\u00e2nquias, retirando oxig\u00eanio dissolvido da \u00e1gua, alguns possuem pulm\u00f5es e precisam buscar oxig\u00eanio atmosf\u00e9rico, como a piramboia. Para ter uma ideia do tamanho da diversidade de esp\u00e9cies de peixes que encontramos na natureza, pense que \u00e9 preciso juntar todos os demais vertebrados e mesmo assim, n\u00e3o teremos o n\u00famero de esp\u00e9cies de peixes. S\u00e3o mais de 30 mil esp\u00e9cies j\u00e1 identi\ufb01cadas pelos cientistas e novas esp\u00e9cies s\u00e3o descritas todos os meses nas revistas cient\u00ed\ufb01cas da \u00e1rea. Ali\u00e1s, a \u00e1rea que estuda os peixes \u00e9 a ictiologia. Dentre estas 30 mil esp\u00e9cies est\u00e3o, por exemplo, os maiores peixes como o tubar\u00e3o-baleia e o peixe-lua na \u00e1gua salgada e os esturj\u00f5es na \u00e1gua doce. Na Am\u00e9rica do Sul, os maiores peixes de \u00e1gua doce s\u00e3o o pirarucu e a pira\u00edba, que podem atingir mais de 2,5 metros e pesar cerca de 200 kg.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As \u00e1reas de pesquisa com peixes s\u00e3o t\u00e3o vastas quanto sua diversidade. H\u00e1 icti\u00f3logos interessados em classi\ufb01car e identi\ufb01car as esp\u00e9cies existentes e verificar a sua distribui\u00e7\u00e3o, origem e as rela\u00e7\u00f5es evolutivas entre elas utilizando aspectos de sua morfologia (formato do corpo, tipos de dentes, escamas, nadadeiras, entre outras caracter\u00edsticas). H\u00e1 tamb\u00e9m os que estudam os demais aspectos biol\u00f3gicos como a reprodu\u00e7\u00e3o, fisiologia ou desenvolvimento embrion\u00e1rio. Tamb\u00e9m h\u00e1 pesquisadores interessados nos aspectos da produ\u00e7\u00e3o e cultivo de peixes tanto para consumo humano quanto ornamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Laborat\u00f3rio de Gen\u00e9tica Ecol\u00f3gica e Evolutiva do campus de Rio Parana\u00edba da Universidade Federal de Vi\u00e7osa utiliza ferramentas da gen\u00e9tica para avaliar caracter\u00edsticas cromoss\u00f4micas ou de sequ\u00eancias de DNA de peixes de popula\u00e7\u00f5es naturais, para estimar variabilidade gen\u00e9tica, distribui\u00e7\u00e3o, origem e evolu\u00e7\u00e3o dos grupos. Um projeto financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Grupo Botic\u00e1rio e outro complementar, financiado pela Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) permitiram realizar estudos de levantamento da Ictiofauna do rio Parana\u00edba, em seu trecho inicial desde a nascente, no munic\u00edpio de Rio Parana\u00edba, at\u00e9 o munic\u00edpio de Patos de Minas, al\u00e9m de riachos que s\u00e3o afluentes deste importante rio do Brasil. At\u00e9 o momento, mais de 30 esp\u00e9cies foram identificadas. \u00c9 um n\u00famero pequeno perto do n\u00famero de esp\u00e9cies da bacia do Alto rio Paran\u00e1 (do qual o rio Parana\u00edba faz parte), embora a grande parte da biodiversidade de peixes esteja localizada em pequenos riachos. Uma quest\u00e3o preocupante foi a pequena quantidade de exemplares de esp\u00e9cies que t\u00eam sido utilizadas em repovoamentos (tamb\u00e9m conhecidos como peixamentos). Por outro lado, at\u00e9 o momento n\u00e3o foram coletadas esp\u00e9cies ex\u00f3ticas, como til\u00e1pia ou bagres africanos, cuja presen\u00e7a em rios brasileiros tem preocupado pesquisadores, pois podem interferir no balan\u00e7o ecol\u00f3gico das esp\u00e9cies nativas, levando algumas \u00e0 extin\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudos mais detalhados de caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas das esp\u00e9cies coletadas nestes projetos permitem, por exemplo, avaliar as diferen\u00e7as entre esp\u00e9cies que s\u00e3o encontradas tanto na bacia do rio Parana\u00edba quanto na bacia do rio S\u00e3o Francisco. A regi\u00e3o do Alto Parana\u00edba \u00e9 um importante divisor das \u00e1guas destas duas bacias hidrografias e o tempo de separa\u00e7\u00e3o entre elas possibilita que os processos de diferencia\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de novas esp\u00e9cies possa acontecer, principalmente em popula\u00e7\u00f5es isoladas de pequenos riachos. Assim observamos, por exemplo, em uma esp\u00e9cie de pequenos peixes da fam\u00edlia dos carac\u00eddeos, chamados de Piabina argentea. Atrav\u00e9s de sequ\u00eancias de DNA podemos observar que as popula\u00e7\u00f5es da bacia do rio S\u00e3o Francisco diferem bastante das popula\u00e7\u00f5es da bacia do rio Parana\u00edba, e que estas diferen\u00e7as embora n\u00e3o tenham sido su\ufb01cientes para grandes altera\u00e7\u00f5es na forma (o que geralmente \u00e9 utilizado para de\ufb01nir uma esp\u00e9cie e dar novos nomes a elas), elas podem ser esp\u00e9cies diferentes. Al\u00e9m disso, pequenas altera\u00e7\u00f5es em medidas comparativas nestas popula\u00e7\u00f5es refor\u00e7am este processo de especia\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ocorrendo em nosso quintal. O mesmo j\u00e1 vimos com outras esp\u00e9cies nesta e em outras diferentes situa\u00e7\u00f5es. Uma implica\u00e7\u00e3o importante destas descobertas pode ser observada quando se deseja fazer manejo e repovoamento em rios e lagos onde a sobrepesca ou outros fatores diminu\u00edram as popula\u00e7\u00f5es de peixes. N\u00e3o respeitar as caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas e evolutivas das esp\u00e9cies pode implicar em problemas de fertilidade, diminuindo o sucesso de tais a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0 medida em que os estudos avan\u00e7am ser\u00e1 poss\u00edvel responder a outras perguntas sobre a biodiversidade dos peixes, gerando informa\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o \u00fateis desde em quest\u00f5es ambientais at\u00e9 em quest\u00f5es econ\u00f4micas como a produ\u00e7\u00e3o de peixes para consumo ou para aquario\ufb01lia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Rubens Pazza<\/strong> \u00e9 bi\u00f3logo, mestre em Biologia Celular e doutor em Gen\u00e9tica e Evolu\u00e7\u00e3o. Atualmente \u00e9 professor da Universidade Federal de Vi\u00e7osa, Campus de Rio Parana\u00edba e atua na \u00e1rea de Gen\u00e9tica Ecol\u00f3gica e Evolutiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que voc\u00ea j\u00e1 tenha tido contato com um grupo de animais muito apreciado como alimento para um grande n\u00famero de povos, o peixe. Com uma varinha, anzol e minhoca (e um pouco de paci\u00eancia) voc\u00ea consegue ir em um riacho ou lago e fazer uma boa pescaria. 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