{"id":1057,"date":"2020-04-29T14:55:46","date_gmt":"2020-04-29T17:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1057"},"modified":"2020-04-29T14:55:46","modified_gmt":"2020-04-29T17:55:46","slug":"william-dallinger-e-o-surgimento-da-evolucao-experimental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1057","title":{"rendered":"William Dallinger e o surgimento da evolu\u00e7\u00e3o experimental"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de Charles Darwin a\ufb01rmar que a evolu\u00e7\u00e3o era muito lenta para ser observada diretamente, um de seus leitores prosseguiu com a ideia de que era poss\u00edvel se observar a evolu\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00e3o. O Reverendo William Dallinger (1839-1909) n\u00e3o era apenas um ministro metodista, ele tamb\u00e9m era muito h\u00e1bil nos m\u00e9todos de microbiologia. Durante v\u00e1rios anos, Dallinger cresceu protozo\u00e1rios em uma incubadora, aumentando gradualmente a temperatura da \u00e1gua em que residiam. Esses organismos continuaram a se reproduzir mesmo em uma temperatura de 158\u00b0 F, que era letal para a esp\u00e9cie anteriormente. Esse experimento considerado por Darwin como &#8220;extremamente curioso e valioso&#8221; se tornou o primeiro registro de uma linha de pesquisa que \ufb01cou conhecida posteriormente como Evolu\u00e7\u00e3o Experimental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro experimento relacionado a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica com microrganismos ocorreu 29 anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o do livro On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life (Sobre a Origem das Esp\u00e9cies por Meio da Sele\u00e7\u00e3o Natural ou a Preserva\u00e7\u00e3o de Ra\u00e7as Favorecidas na Luta pela Vida). Em 1878, Darwin teve acesso atrav\u00e9s de suas correspond\u00eancias a detalhes do experimento realizado por um ministro metodista e cientista amador chamado William Dallinger com grandes habilidades nos m\u00e9todos de microbiologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dallinger tinha percebido algo simples, mas profundo: enquanto os animais e plantas n\u00e3o s\u00e3o adequados para experimentos de evolu\u00e7\u00e3o, os microrganismos poderiam fazer tal experi\u00eancia poss\u00edvel. Como os microrganismos s\u00e3o min\u00fasculos, um \u00fanico copo de vidro poderia conter bilh\u00f5es deles. Em uma grande popula\u00e7\u00e3o tal, seria encontrada uma quantidade enorme de varia\u00e7\u00e3o sobre a qual a sele\u00e7\u00e3o natural poderia funcionar. Outra vantagem dos microrganismos \u00e9 que eles se reproduzem muito mais r\u00e1pido do que animais e plantas. Mil gera\u00e7\u00f5es de seres humanos pode se estender por 20 mil anos ou mais, mas mil gera\u00e7\u00f5es de bact\u00e9rias pode abranger apenas algumas semanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em carta escrita para Darwin, Dallinger explicava como havia projetado um vaso de cobre especial para seus experimentos. Ele o encheu com \u00e1gua e adicionou alguns protistas conhecidos como \ufb02agelados, organismos unicelulares que se movimentam atrav\u00e9s do batimento de \ufb02agelos, em latim &#8220;Flagellata&#8221;. Ao longo de meses, Dallinger aumentou lentamente a temperatura da \u00e1gua. Ele estava curioso para saber se os \ufb02agelados poderiam adaptar-se por meio da sele\u00e7\u00e3o natural ao aquecimento da \u00e1gua, e com isso os microrganismos resistentes ao calor se reproduziriam mais do que os organismos sens\u00edveis. Ao longo de meses, ele aumentou a temperatura da \u00e1gua gradualmente at\u00e9 atingir o valor de 158 graus Fahrenheit, sendo essa temperatura letal para os \ufb02agelados comuns. Mas Dallinger descobriu que os \ufb02agelados em seu navio continuavam a se reproduzir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dallinger concluiu que de fato os \ufb02agelados haviam desenvolvido uma resist\u00eancia ao calor. Ele escreveu para Darwin que durante o processo de adapta\u00e7\u00e3o ao seu ambiente mais quente,os \ufb02agelados teriam perdido algumas de suas adapta\u00e7\u00f5es para sobreviver em temperaturas mais frias. Para testar essa a\ufb01rma\u00e7\u00e3o, Dallinger colocou alguns organismos j\u00e1 adaptados a temperatura de 70\u00b0C em um novo ambiente com a temperatura de 15,6\u00b0C e observou que eles n\u00e3o cresceram nessa nova temperatura reduzida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Darwin \ufb01cou extremamente satisfeito ao saber da experi\u00eancia de Dallinger. Chegou a escrever que &#8220;Seus resultados, n\u00e3o tenho d\u00favida, v\u00e3o ser extremamente curiosos e valiosos&#8221;. No entanto, a evolu\u00e7\u00e3o experimental n\u00e3o \ufb02oresceu imediatamente em um novo tipo de ci\u00eancia. A julgar pela sua escrita, Darwin n\u00e3o entendeu plenamente como a experi\u00eancia de Dallinger foi importante para a pr\u00f3pria teoria de Darwin. Outros cientistas tamb\u00e9m elogiaram o experimento de Dallinger, mas nenhum deles se preocupou em fazer uma experi\u00eancia evolutiva pr\u00f3pria. Dallinger tentou manter sua experi\u00eancia em curso, mas, em 1886, seu navio foi destru\u00eddo em um acidente. Talvez desanimado pela fria recep\u00e7\u00e3o ao seu trabalho, Dallinger nunca a reconstruiu. Por d\u00e9cadas, ningu\u00e9m seguiu seu trabalho. Em retrospecto, podemos perceber como Dallinger estava muito \u00e0 frente de seu tempo, e mesmo cientistas proeminentes e com uma vis\u00e3o inovadora n\u00e3o conseguiram interpretar a import\u00e2ncia de seus resultados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos dias de Dallinger, por exemplo, ningu\u00e9m sabia sobre o DNA. O experimento foi realizado mais de 20 anos antes da palavra gene ser cunhada. Sem uma clara compreens\u00e3o de como os genes se relacionam com a hereditariedade, Dallinger n\u00e3o tinha como saber com certeza que a sele\u00e7\u00e3o natural estava dirigindo a adapta\u00e7\u00e3o de seus microrganismos, passando pelas mesmas dificuldades de Darwin para validar sua teoria evolutiva. Era poss\u00edvel que os microrganismos estivessem apenas respondendo a sua experi\u00eancia, da mesma forma como um \ufb01siculturista desenvolve m\u00fasculos maiores e ossos mais fortes levantando pesos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, Dallinger est\u00e1 longe de ser um nome familiar, mas \u00e9 reverenciado em certos laborat\u00f3rios espalhados ao redor do globo. Nesses laborat\u00f3rios, os cientistas est\u00e3o \ufb01nalmente tornando o sonho de Dallinger uma realidade. Durante os \u00faltimos 20 anos, mais ou menos, eles t\u00eam desenvolvido experimentos com microrganismos para testar hip\u00f3teses sobre o funcionamento da evolu\u00e7\u00e3o. Esses experimentos agora lan\u00e7am luz sobre as altera\u00e7\u00f5es moleculares que ocorrem e como os organismos se adaptam a novos desa\ufb01os. Eles revelam como a sele\u00e7\u00e3o natural pode alterar o comportamento e at\u00e9 mesmo as rela\u00e7\u00f5es sociais. Essas mudan\u00e7as acontecem, como Dallinger esperava, sobre uma quest\u00e3o de semanas ou meses. E em alguns casos, os cientistas podem at\u00e9 observar a origem de uma nova esp\u00e9cie em seus pr\u00f3prios laborat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Fabiano Bezerra Menegidio<\/strong>, bi\u00f3logo, bioinformata e mestrando em biotecnologia. Divulgador cient\u00ed\ufb01co no projeto Evolution Academy. Universidade de Mogi das Cruzes, N\u00facleo de Biotecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Henrique Pereira Rufo<\/strong>, bi\u00f3logo e divulgador cient\u00ed\ufb01co no projeto Evolution Academy.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar de Charles Darwin a\ufb01rmar que a evolu\u00e7\u00e3o era muito lenta para ser observada diretamente, um de seus leitores prosseguiu com a ideia de que era poss\u00edvel se observar a evolu\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00e3o. 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