{"id":1462,"date":"2022-07-25T19:20:52","date_gmt":"2022-07-25T22:20:52","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1462"},"modified":"2022-07-25T19:24:06","modified_gmt":"2022-07-25T22:24:06","slug":"um-legitimo-rioparanaibano-a-resiliencia-de-uma-recem-descrita-especie","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=1462","title":{"rendered":"Um leg\u00edtimo rioparanaibano, a resili\u00eancia de uma rec\u00e9m descrita esp\u00e9cie"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na grande \u00e1rea das ci\u00eancias biol\u00f3gicas uma das tarefas mais dif\u00edceis, e recorrentes, que um cientista tem \u00e9 delimitar esp\u00e9cies. Mas afinal, o que \u00e9 uma esp\u00e9cie? O que parece ser uma pergunta f\u00e1cil de ser respondida geralmente causa um verdadeiro n\u00f3 na cabe\u00e7a dos bi\u00f3logos. O motivo disso \u00e9 que os organismos vivos se diferenciam mais ou menos uns dos outros, e essa varia\u00e7\u00e3o acontece tanto acima quanto abaixo do n\u00edvel de esp\u00e9cie. Desta forma, \u201cesp\u00e9cie\u201d nada mais \u00e9 do que um termo criado por n\u00f3s humanos para delimitar organismos que s\u00e3o suficientemente diferentes entre si. A grande dificuldade fica em se determinar qu\u00e3o diferente um organismo precisa ser do outro para serem considerados de diferentes esp\u00e9cies, ou em outras palavras, onde termina uma esp\u00e9cie e onde come\u00e7a outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentes conceitos foram propostos ao longo dos anos para auxiliar neste dilema, levando em considera\u00e7\u00e3o aspectos como reprodu\u00e7\u00e3o, gen\u00e9tica, morfologia, hist\u00f3ria evolutiva, nicho ecol\u00f3gico e etc. Cada um desses conceitos apresenta seus  m\u00e9ritos e suas falhas, mas no geral os pesquisadores concordam que usar diferentes m\u00e9todos e fontes de informa\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica \u00e9 a melhor solu\u00e7\u00e3o. Uma \u00faltima quest\u00e3o que devemos discutir \u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das esp\u00e9cies, j\u00e1 que algumas, como a nossa, ocorrem em todo planeta, enquanto outras podem ter uma distribui\u00e7\u00e3o mais restrita, podendo at\u00e9 serem encontradas em um \u00fanico local, sendo chamadas de esp\u00e9cies end\u00eamicas. Agora j\u00e1 imaginou que legal seria ter uma esp\u00e9cie que ocorre apenas em sua cidade? Pois esse \u00e9 um orgulho que os cidad\u00e3os do munic\u00edpio de Rio Parana\u00edba-MG podem ter.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano de 2020, pesquisadores da Universidade Federal de Vi\u00e7osa &#8211; Campus Rio Parana\u00edba descreveram uma pequena esp\u00e9cie de peixe end\u00eamica do c\u00f3rrego Rita, um<br>pequeno afluente na cidade de Rio Parana\u00edba. Os pesquisadores estavam investigando a diversidade gen\u00e9tica e morfol\u00f3gica de uma esp\u00e9cie de piaba j\u00e1 conhecida pela ci\u00eancia chamada <em>Psalidodon paranae<\/em>, que ocorre na bacia do Alto rio Paran\u00e1, da qual o rio Parana\u00edba faz parte. A amostragem ocorreu em oito afluentes da bacia do rio Parana\u00edba, e em sete os esp\u00e9cimes coletados foram identificados como <em>P. paranae<\/em>. Por\u00e9m os pesquisadores perceberam que os esp\u00e9cimes do c\u00f3rrego Rita eram bem diferentes dos coletados em outros pontos, tanto em quest\u00f5es gen\u00e9ticas quanto morfom\u00e9tricas, isto \u00e9, analisando a forma corporal dos esp\u00e9cimes. Desta forma, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que se tratava de uma nova esp\u00e9cie e homenagearam a cidade nomeando o peixe como <em>P. rioparanaibanus<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Infelizmente essa hist\u00f3ria quase teve um final precoce e triste. Devido a um empreendimento imobili\u00e1rio pr\u00f3ximo ao c\u00f3rrego Rita e as fortes chuvas que atingiram a regi\u00e3o entre o final de 2021 e in\u00edcio de 2022 uma enorme quantidade de lama atingiu o c\u00f3rrego ap\u00f3s o rompimento de uma bacia de reten\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de colocar a nova esp\u00e9cie em risco de extin\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito importante lembrar que o  c\u00f3rrego Rita \u00e9 usado no abastecimento de \u00e1gua da cidade de Rio Parana\u00edba. Felizmente em uma nova visita ao local no in\u00edcio de abril de 2022 os pesquisadores da UFV constataram que a popula\u00e7\u00e3o dos peixes sobreviveu ao acidente, mas o ocorrido acende mais uma vez o alerta sobre os riscos que os impactos dos empreendimentos humanos representam n\u00e3o s\u00f3 a fauna e ao ambiente local, mas a nossa pr\u00f3pria subsist\u00eancia.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"416\" height=\"317\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-1463\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3.png 416w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3-300x229.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/image-3-394x300.png 394w\" sizes=\"auto, (max-width: 416px) 100vw, 416px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem: Igor Henrique Rodrigues Oliveira<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Igor Henrique Rodrigues Oliveira<\/strong> \u00e9 graduado em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas pela Universidade Federal de Vi\u00e7osa &#8211; Campus Rio Parana\u00edba, mestre em Manejo e Conserva\u00e7\u00e3o de Ecossistemas Naturais e Agr\u00e1rios pela Universidade Federal de Vi\u00e7osa &#8211; Campus Florestal e doutorando em Zoologia pela Universidade Federal de Minas Gerais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na grande \u00e1rea das ci\u00eancias biol\u00f3gicas uma das tarefas mais dif\u00edceis, e recorrentes, que um cientista tem \u00e9 delimitar esp\u00e9cies. 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