{"id":215,"date":"2014-08-29T10:14:14","date_gmt":"2014-08-29T13:14:14","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=215"},"modified":"2014-08-29T10:14:14","modified_gmt":"2014-08-29T13:14:14","slug":"uma-especie-nova-na-panela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=215","title":{"rendered":"Uma esp\u00e9cie nova na panela"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Rubens Pazza<\/em><\/p>\n<p>Vez por outra voc\u00ea l\u00ea nos jornais, revistas e websites que cientistas descobriram uma nova esp\u00e9cie disso ou daquilo, n\u00e3o l\u00ea? Saiba que o que \u00e9 publicado no jornal n\u00e3o passa da ponta de um \u201ciceberg\u201d, pois nosso desconhecimento sobre a biodiversidade ainda \u00e9 muito grande. Mas o que afinal significa dizer que os cientistas descobriram uma nova esp\u00e9cie? Ser\u00e1 que eles se embrenharam na Mata Amaz\u00f4nica e de repente toparam com uma planta nova, um animal novo?<\/p>\n<p>Nem sempre que se fala da descoberta de uma nova esp\u00e9cie \u00e9 porque ela era totalmente desconhecida. Muitas vezes voc\u00ea j\u00e1 havia at\u00e9 topado com ela, mas n\u00e3o imaginava que era algo diferente. Embora a metodologia possa variar um pouco dependendo com que organismo estamos lidando, o exemplo que vou utilizar, com peixes, reflete bem o modo como tudo acontece at\u00e9 virar not\u00edcia. No ano passado, um dos gigantes portais da web nacional publicou uma not\u00edcia sobre a descoberta de uma nova esp\u00e9cie de peixe de \u00e1gua doce, um cascudo da fam\u00edlia dos loricari\u00eddeos encontrado em um afluente do Amazonas na Col\u00f4mbia. Ser\u00e1 que a descoberta de novas esp\u00e9cies de peixes s\u00e3o furo de reportagem ou a ag\u00eancia de not\u00edcias estava sem not\u00edcias para divulgar?<\/p>\n<p>Se for o primeiro caso, eles est\u00e3o perdendo muita not\u00edcia, pois revistas especializadas publicam novas esp\u00e9cies de peixes em todos os n\u00fameros. Por exemplo, a revista <em>Neotropical Ichthyology<\/em>, publicada pela Sociedade Brasileira de Ictiologia, publicou no ano de 2008 nada menos que 44 novas esp\u00e9cies de peixes e no ano de 2009 foram mais 21. Ou seja, uma \u00fanica revista especializada publicou cerca de 65 novas esp\u00e9cies de peixes apenas dos \u00faltimos dois anos. E esta n\u00e3o \u00e9 nem a \u00fanica revista do Brasil a publicar novas esp\u00e9cies de peixes todos os meses. Peixes representam a metade de todos os vertebrados da Terra. Somando todos os mam\u00edferos, aves, r\u00e9pteis e anf\u00edbios temos cerca de 24 mil esp\u00e9cies descritas, o que \u00e9 aproximadamente o mesmo n\u00famero de esp\u00e9cies descritas para peixes. Apenas no Brasil s\u00e3o cerca de cinco mil esp\u00e9cies em \u00e1gua doce. Entre o que muitos chamam popularmente de cascudos, os peixes que apresentam o corpo revestido por placas d\u00e9rmicas que parece uma carapa\u00e7a, existem cerca de 600 esp\u00e9cies. Assim, \u00e9 muito prov\u00e1vel que o cascudo que se pesca no Rio Grande do Sul n\u00e3o seja a mesma esp\u00e9cie que se pesca em Minas Gerais, por exemplo, e dificilmente ser\u00e1 a mesma pescada na Amaz\u00f4nia. Com o aumento nos estudos deste grupo a cada dia, novas esp\u00e9cies podem ser identificadas e caracterizadas.<\/p>\n<p>A caracteriza\u00e7\u00e3o de um peixe como uma esp\u00e9cie diferente, nova, se baseia num minucioso estudo de v\u00e1rias caracter\u00edsticas morfol\u00f3gicas externas e internas, comparando-se com exemplares j\u00e1 descritos e mantidos em museus de zoologia do Brasil e do mundo. Para se ter uma ideia, muitas esp\u00e9cies de peixes foram coletadas no Brasil por Darwin e outros naturalistas, descritas por pesquisadores ingleses e atualmente se encontram no Museu de Londres. Quando precisamos saber se um determinado peixe que coletamos \u00e9 a mesma esp\u00e9cie j\u00e1 descrita, precisamos recorrer a estas amostras nos museus para compara\u00e7\u00e3o. Se o que tivermos em m\u00e3os for diferente do que est\u00e1 descrito na literatura especializada e depositada no museu, temos uma esp\u00e9cie nova. O pr\u00f3ximo passo \u00e9 descrever detalhadamente todas as caracter\u00edsticas que a diferem das demais esp\u00e9cies, publicar os resultados em uma revista especializada, e depositar os exemplares \u201ctipo\u201d em um museu. A caracter\u00edstica de nossas bacias hidrogr\u00e1ficas \u00e9 prop\u00edcia para processos de especia\u00e7\u00e3o, o que faz com que o avan\u00e7o dos estudos, estimulados pela crescente conscientiza\u00e7\u00e3o acerca da import\u00e2ncia da biodiversidade, leve \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de cada vez mais esp\u00e9cies novas.<\/p>\n<p>Em alguns casos, no entanto, \u00e9 poss\u00edvel que as pessoas j\u00e1 a &#8220;conhe\u00e7am&#8221; e j\u00e1 a pesquem, pensando se tratar de uma esp\u00e9cie comum no Brasil inteiro at\u00e9 aos olhos dos mais experientes pescadores, quando na verdade se trata de uma esp\u00e9cie nova. Estima-se, inclusive, que muitas esp\u00e9cies de peixes ainda ser\u00e3o extintas antes mesmo que a conhe\u00e7amos. Conhecer a biodiversidade \u00e9 muito importante. \u00c9 a \u00fanica maneira de planejarmos sua conserva\u00e7\u00e3o de modo consciente. Por isso, os estudos que levam \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de novas esp\u00e9cies s\u00e3o cruciais para processos como a explora\u00e7\u00e3o comercial e tamb\u00e9m para a elabora\u00e7\u00e3o de projetos de repovoamento.<\/p>\n<p>Da pr\u00f3xima vez que for pescar, tente imaginar se o peixe que vai para sua panela \u00e9 o mesmo que est\u00e1 l\u00e1 no museu. Ser\u00e1 que n\u00e3o est\u00e1 levando para a panela uma esp\u00e9cie nova, desconhecida da ci\u00eancia? Isto sim \u00e9 consumo consciente!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Rubens Pazza<\/strong> \u00e9 bi\u00f3logo, mestre em Biologia Celular e Doutor em Gen\u00e9tica e Evolu\u00e7\u00e3o. \u00c9 docente\u00a0do campus de Rio Parana\u00edba da UFV e atua na \u00e1rea de Gen\u00e9tica Ecol\u00f3gica e Evolutiva.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como citar esse documento:<\/p>\n<p>Pazza, R. (2010). Uma Esp\u00e9cie nova na Panela. Folha Biol\u00f3gica 1 (1): 2.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rubens Pazza Vez por outra voc\u00ea l\u00ea nos jornais, revistas e websites que cientistas descobriram uma nova esp\u00e9cie disso ou daquilo, n\u00e3o l\u00ea? Saiba que o que \u00e9 publicado no jornal n\u00e3o passa da ponta de um \u201ciceberg\u201d, pois nosso desconhecimento sobre a biodiversidade ainda \u00e9 muito grande. Mas o que afinal significa dizer que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":945,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[300],"tags":[13,304,50,305],"class_list":["post-215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume-1","tag-biodiversidade","tag-especie-nova","tag-peixes","tag-taxonomia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/945"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=215"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":222,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/215\/revisions\/222"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}