{"id":2376,"date":"2025-07-17T13:34:50","date_gmt":"2025-07-17T16:34:50","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=2376"},"modified":"2025-07-17T13:51:10","modified_gmt":"2025-07-17T16:51:10","slug":"aves-rancorosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=2376","title":{"rendered":"Aves Rancorosas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os animais est\u00e3o em constante aprendizado, adquirindo conhecimento por meio da observa\u00e7\u00e3o e da associa\u00e7\u00e3o com experi\u00eancias vividas. Animais de estima\u00e7\u00e3o, por exemplo, reconhecem h\u00e1bitos, rostos e sons espec\u00edficos, como seus nomes ou o barulho da embalagem de ra\u00e7\u00e3o. Entretanto, essa capacidade de memoriza\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m dos animais dom\u00e9sticos, sendo tamb\u00e9m fundamental para a sobreviv\u00eancia de esp\u00e9cies selvagens. Animais como pombos e corvos, por exemplo, s\u00e3o capazes de lembrar locais com alimento, identificar membros do pr\u00f3prio grupo e at\u00e9 reconhecer situa\u00e7\u00f5es de perigo. Esses animais, que vivem pr\u00f3ximos aos centros urbanos, chamados de sinantr\u00f3picos, sobrevivem no ambiente humano utilizando pistas ac\u00fasticas, visuais e olfativas. Assim, a mem\u00f3ria se torna um mecanismo vital para a adapta\u00e7\u00e3o e a conviv\u00eancia com o meio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os corvos-americanos (<em>Corvus brachyrhynchos<\/em>) s\u00e3o aves sociais e inteligentes, com uma cogni\u00e7\u00e3o considerada avan\u00e7ada. Eles aprendem com rapidez e precis\u00e3o, sendo capazes de reconhecer e lembrar rostos humanos por longos per\u00edodos. Uma pesquisa realizada em 2010 demonstrou que os corvos n\u00e3o apenas reconhecem rostos, mas tamb\u00e9m conseguem diferenci\u00e1-los entre si, mesmo entre grupos de pessoas. Isso significa que, al\u00e9m de guardarem a lembran\u00e7a de uma experi\u00eancia negativa, eles distinguem detalhes faciais. Os corvos podem identificar a face de uma pessoa considerada perigosa e manter essa mem\u00f3ria por cerca de 2 a 7 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o estudo, os corvos reconheceram e repreenderam (fizeram alarde contra) pessoas que usavam m\u00e1scaras associadas a experi\u00eancias negativas, mesmo quando estavam vestidas de forma diferente. Isso indica que eles direcionam maior aten\u00e7\u00e3o ao rosto humano do que aos trajes e acess\u00f3rios utilizados. Os pesquisadores tamb\u00e9m observaram que os corvos podem ser influenciados por outros corvos que est\u00e3o \u201creclamando\u201d, formando grupos de alarme. Eles tamb\u00e9m reconhecem rostos em diferentes \u00e2ngulos e at\u00e9 mesmo de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa habilidade cognitiva \u00e9 fundamental para sua sobreviv\u00eancia, especialmente em ambientes urbanos, onde precisam distinguir entre amea\u00e7as e pessoas inofensivas. Al\u00e9m disso, \u00e9 sugerido que as rea\u00e7\u00f5es de medo e reconhecimento apresentadas pelos corvos possuam bases neurol\u00f3gicas semelhantes \u00e0s dos mam\u00edferos, envolvendo estruturas cerebrais como a am\u00edgdala e o hipocampo, \u00e1reas ligadas \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 resposta emocional. \u00c9 poss\u00edvel que essa habilidade tenha desempenhado um papel importante na rela\u00e7\u00e3o entre corvos e seres humanos ao longo da hist\u00f3ria. Em diversas culturas, essas aves est\u00e3o presentes em mitos, lendas e s\u00edmbolos, muitas vezes associadas \u00e0 intelig\u00eancia, aos press\u00e1gios ou ao companheirismo. \u00c0 medida que a ci\u00eancia avan\u00e7a na investiga\u00e7\u00e3o de ambientes urbanos, rurais e naturais, torna-se cada vez mais evidente que as intera\u00e7\u00f5es constantes com os humanos est\u00e3o levando certos animais, como os corvos, a desenvolver capacidades cognitivas refinadas, incluindo o reconhecimento individual de pessoas, uma adapta\u00e7\u00e3o que pode ser essencial para sua sobreviv\u00eancia e sucesso em ambientes dominados por nossa esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"240\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2377\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-1.png 320w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/image-1-300x225.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\"><strong>Imagem:<\/strong> Esp\u00e9cie <em>Corvus brachyrhynchos.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancia:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARZLUFF, John M. et al. Lasting recognition of threatening people by wild American crows. <strong>Animal Behaviour<\/strong>, v. 79, n. 3, p. 699-707, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Laiena Luz Bassam Amadeu<\/strong> \u00e9 doutoranda em Biologia Animal pela Universidade Federal de Vi\u00e7osa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os animais est\u00e3o em constante aprendizado, adquirindo conhecimento por meio da observa\u00e7\u00e3o e da associa\u00e7\u00e3o com experi\u00eancias vividas. Animais de estima\u00e7\u00e3o, por exemplo, reconhecem h\u00e1bitos, rostos e sons espec\u00edficos, como seus nomes ou o barulho da embalagem de ra\u00e7\u00e3o. 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