{"id":258,"date":"2014-09-10T23:42:10","date_gmt":"2014-09-11T02:42:10","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=258"},"modified":"2014-09-10T23:42:10","modified_gmt":"2014-09-11T02:42:10","slug":"conhecer-para-preservar-e-preservar-para-conhecer-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=258","title":{"rendered":"Conhecer para preservar e preservar para conhecer."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Karine Frehner Kavalco<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cNada na Biologia faz sentido exceto \u00e0 luz da Evolu\u00e7\u00e3o\u201d. Foi o que inteligentemente afirmou Theodosius Dobzhansky (que consolidou a nascente ci\u00eancia da gen\u00e9tica no Brasil), depois de observar caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas da pequena mosca da fruta, <em>Drosophila melanogaster<\/em>. Esta afirma\u00e7\u00e3o fora usada in\u00fameras vezes depois dele a ter proferido, e a cada dia ela ganha mais sentido. Desde muito antes de Charles Darwin, v\u00e1rios pesquisadores j\u00e1 tinham notado que as esp\u00e9cies mudavam, mas eles n\u00e3o sabiam como. De posse de ideias de outros pesquisadores sobre a mudan\u00e7a nos padr\u00f5es de diversidade vistos na natureza e sobre dados demogr\u00e1ficos de popula\u00e7\u00f5es humanas, Darwin p\u00f4de dar sentido \u00e0quilo que ele encontrou em sua viagem com o navio brit\u00e2nico \u201cH. M. S. Beagle\u201d pela Am\u00e9rica do Sul. A regi\u00e3o Neotropical (que se estende do sul dos Estados Unidos at\u00e9 o norte da Argentina), visitada quase em sua totalidade pelo naturalista em sua aventura, \u00e9 realmente uma das mais ricas em termos de n\u00famero de diferentes esp\u00e9cies, seja com rela\u00e7\u00e3o a plantas ou animais. Darwin viu uma vasta diversidade de formas e tipos, cores e comportamentos, que o levou a indagar sobre os processos que dariam origem a este fen\u00f4meno. O arquip\u00e9lago de Gal\u00e1pagos, formado por mais de 50 ilhas, foi o laborat\u00f3rio natural de Charles Darwin, o local que lhe suscitou tantas d\u00favidas e o extasiou com tamanha beleza ex\u00f3tica. Essa viagem pode ser considerada o marco de in\u00edcio da Biologia Evolutiva como Ci\u00eancia. Darwin estabeleceu m\u00e9todos para an\u00e1lise e prop\u00f4s os processos biol\u00f3gicos que estariam por tr\u00e1s da biodiversidade que ele observara. Ele analisou uma grande quantidade de diferentes organismos, e fortaleceu suas predi\u00e7\u00f5es sobre a Sele\u00e7\u00e3o Natural com a observa\u00e7\u00e3o da for\u00e7a da Sele\u00e7\u00e3o Artificial feita por criadores.<\/p>\n<p>Hoje, a cada dia, milhares de bi\u00f3logos evolutivos relatam \u00e0 comunidade cient\u00edfica fatos que corroboram as ideias de Darwin e de outros grandes cientistas. Depois da introdu\u00e7\u00e3o de dados de outras Ci\u00eancias, como a Gen\u00e9tica, as observa\u00e7\u00f5es cotidianas dos processos nos seres vivos foram entendidas de maneira mais plena, e hoje se assume que a Evolu\u00e7\u00e3o seja o elo que agrega todas as \u00e1reas das Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas. Da mesma forma que a Biologia Evolutiva, o Bi\u00f3logo Evolutivo tem um vasto campo de atua\u00e7\u00e3o. Embora seja uma das \u00e1reas mais exclusivas das Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, uma vez que normalmente apenas bi\u00f3logos estudam com profundidade Evolu\u00e7\u00e3o Biol\u00f3gica, ainda h\u00e1 muito por se fazer. Descrever padr\u00f5es na natureza, tentando explicar que processos os produziram, \u00e9 uma das tarefas mais \u00e1rduas nesta \u00e1rea. E relatar o mecanismo exato dos processos que produzem esse padr\u00e3o, como por exemplo, a Sele\u00e7\u00e3o Natural, \u00e9 ainda mais dif\u00edcil. Mas o encanto que entender como uma forma foi moldada durante centenas de gera\u00e7\u00f5es \u00e9 algo t\u00e3o profundo, que nenhum bi\u00f3logo evolutivo foge da oportunidade de entender um pouco mais sobre a natureza. A maneira de fazer esta Ci\u00eancia mudou muito desde a \u00e9poca de Darwin. Naquela \u00e9poca n\u00e3o havia potentes microsc\u00f3pios, aparelhos de precis\u00e3o ou modelos matem\u00e1ticos t\u00e3o bem desenhados como hoje, que facilitam e permitem um maior aprofundamento nos estudos dos bi\u00f3logos. Hoje, entretanto, estamos mais limitados \u00e0 devasta\u00e7\u00e3o de nossos laborat\u00f3rios naturais. Junto com a diversidade de formas, tipos, cores, comportamentos, etc., que nos \u00e9 tolhida dia-a-dia com a destrui\u00e7\u00e3o da vida natural, de diferentes habitat, perdemos as respostas a tantas perguntas, algumas delas ainda n\u00e3o formuladas, dada a limita\u00e7\u00e3o do nosso conhecimento.<\/p>\n<p>Embora tenha visitado apenas quatro das ilhas de Gal\u00e1pagos, o que seria de Darwin se ele fizesse hoje esta viagem e se o governo equatoriano n\u00e3o tivesse decretado Gal\u00e1pagos um Santu\u00e1rio da Vida Selvagem? E o mais importante, o que seria da Ci\u00eancia se Darwin n\u00e3o tivesse tido a chance de ver o que viu em 1835? Quantos \u201cDarwins\u201d estamos coibindo, quanto conhecimento estamos perdendo a cada \u00e1rvore que vai ao ch\u00e3o? Conhecer a natureza n\u00e3o nos possibilita apenas conhecer o mundo ao nosso redor. Conhecer a natureza, seus padr\u00f5es e os processos que a formam, implica em nos conhecermos, uma vez que somos parte dela, aceitemos ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Karine Frehner Kavalco<\/strong> \u00e9 bi\u00f3loga, mestre em Gen\u00e9tica e Evolu\u00e7\u00e3o e doutora em Gen\u00e9tica. \u00c9 professora do campus de Rio Parana\u00edba da UFV e atua na \u00e1rea de Evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Como citar esse documento:<\/p>\n<p>Kavalco, K.F. (2010) Conhecer para preservar e preservar para conhecer. Folha biol\u00f3gica 1 (3): 1<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karine Frehner Kavalco \u00a0 \u201cNada na Biologia faz sentido exceto \u00e0 luz da Evolu\u00e7\u00e3o\u201d. Foi o que inteligentemente afirmou Theodosius Dobzhansky (que consolidou a nascente ci\u00eancia da gen\u00e9tica no Brasil), depois de observar caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas da pequena mosca da fruta, Drosophila melanogaster. 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