{"id":297,"date":"2014-09-24T08:26:33","date_gmt":"2014-09-24T11:26:33","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=297"},"modified":"2014-09-24T08:26:33","modified_gmt":"2014-09-24T11:26:33","slug":"selecao-x-sorteio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=297","title":{"rendered":"Sele\u00e7\u00e3o x Sorteio"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Rubens Pazza<\/em><\/p>\n<p>Definitivamente, evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre ao acaso. Mas afinal, o que torna a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica n\u00e3o aleat\u00f3ria? Sem mesmo cunhar o termo \u201cEvolu\u00e7\u00e3o\u201d, Darwin nos explica que as esp\u00e9cies sofrem mudan\u00e7as ao longo das gera\u00e7\u00f5es, e que um processo chamado de \u201csele\u00e7\u00e3o natural\u201d atua escolhendo os indiv\u00edduos que transmitir\u00e3o suas caracter\u00edsticas aos descendentes. Em outras palavras, a sele\u00e7\u00e3o natural determina quem viver\u00e1 o tempo suficiente para se reproduzir, atrav\u00e9s do instinto b\u00e1sico de perpetua\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Ora, se h\u00e1 uma sele\u00e7\u00e3o, n\u00e3o pode haver aleatoriedade. N\u00e3o existe sele\u00e7\u00e3o &#8220;ao acaso&#8221;. Tomemos um exemplo: toda semana, in\u00fameras pessoas escolhem seis n\u00fameros que imaginam (e esperam) que sejam escolhidos dentre 50 em um determinado jogo da loteria. Caso acertem, recebem uma soma em dinheiro. Em um local apropriado, h\u00e1 uma urna contendo 50 bolas que representam os 50 n\u00fameros do jogo. Dessa urna retiram-se seis bolas, completamente ao acaso. Nenhum fator espec\u00edfico for\u00e7a a sa\u00edda de um n\u00famero da urna em detrimento de outro. Ou seja, os n\u00fameros s\u00e3o sorteados, tirados da urna aleatoriamente, um a um. Jamais dir\u00edamos que seis n\u00fameros s\u00e3o selecionados, mas sim, que foram sorteados.<\/p>\n<p>Compare agora com o pr\u00f3ximo exemplo: um determinado produtor planta feij\u00e3o e retira de sua produ\u00e7\u00e3o as sementes que utilizar\u00e1 na lavoura no pr\u00f3ximo ano. Para isso, escolhe para o pr\u00f3ximo plantio sempre as maiores sementes. As sementes menores s\u00e3o enviadas \u00e0 Cooperativa. N\u00e3o se pode dizer que as sementes que ele utilizar\u00e1 na pr\u00f3xima safra foram escolhidas ao acaso. O produtor utilizou um crit\u00e9rio que selecionou determinadas sementes em detrimento de outras, ou seja, selecionou uma caracter\u00edstica. Se tal escolha lhe garantir\u00e1 maior produ\u00e7\u00e3o na pr\u00f3xima safra ou n\u00e3o, depende quase exclusivamente da caracter\u00edstica em quest\u00e3o ser heredit\u00e1ria ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ficar claro a diferen\u00e7a entre sorteio e sele\u00e7\u00e3o. No sorteio nenhuma caracter\u00edstica em si \u00e9 levada em considera\u00e7\u00e3o nas escolhas, tudo \u00e9 ao acaso, aleat\u00f3rio. Em uma sele\u00e7\u00e3o, por outro lado, pelo menos uma caracter\u00edstica \u00e9 utilizada para separar ou escolher alguns membros dentro de um grupo. Pode-se pensar que assim como no exemplo citado, a sele\u00e7\u00e3o precisa de um Selecionador. Definitivamente isso est\u00e1 correto. \u00c9 necess\u00e1rio um selecionador. No entanto, tal selecionador n\u00e3o precisa de intelig\u00eancia, n\u00e3o precisa saber o que est\u00e1 fazendo. Voltemos ao exemplo anterior: o agricultor sabia o que queria: queria selecionar os maiores gr\u00e3os para plantar na pr\u00f3xima safra. Este processo seletivo realizado pelo ser humano \u00e9 conhecido como \u201csele\u00e7\u00e3o artificial\u201d e ilustra bem o processo an\u00e1logo que ocorre na natureza. Notamos claramente que o agente selecionador tem intencionalidade, pois tem um objetivo em mente; racionalidade, pois \u00e9 capaz de planejar a sele\u00e7\u00e3o e idealizar um objetivo concretizado. Ser\u00e1 ent\u00e3o que todo processo de sele\u00e7\u00e3o envolve intencionalidade e racionalidade?<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Richard Dawkins, no livro \u201cO relojoeiro cego\u201d, cita um exemplo simples de como a ordem pode surgir do caos. Ao vermos a deposi\u00e7\u00e3o de pedregulhos numa praia, percebemos uma ordem. As pedras menores localizam-se na regi\u00e3o superior, aumentando gradativamente de tamanho conforme avan\u00e7am para o mar, muitas vezes de um modo t\u00e3o meticuloso e organizado que nossa mente poderia nos trair e nos levar a acreditar que devem ter sido intencional e racionalmente organizadas daquela maneira.\u00a0 Um breve retorno \u00e0 realidade nos mostra a verdade. Nas mar\u00e9s altas, a for\u00e7a das ondas empurra os pedregulhos para fora, praia acima. Entretanto, sabe-se que os obst\u00e1culos diminuem gradativamente a for\u00e7a das ondas. Assim, enquanto em regi\u00f5es mais pr\u00f3ximas da mar\u00e9 a for\u00e7a das ondas \u00e9 suficiente para empurrar pedregulhos maiores, quanto mais para fora, menor ser\u00e1 a for\u00e7a da onda e menores ser\u00e3o os pedregulhos que ela pode carregar. Como a for\u00e7a das ondas decresce gradativamente, vemos como resultado a gradativa ordem de tamanhos nos pedregulhos. Os pedregulhos n\u00e3o foram espalhados l\u00e1 por sorteio, ao acaso. Foram selecionados. No entanto, n\u00e3o h\u00e1 intencionalidade nem racionalidade nesta sele\u00e7\u00e3o. O agente selecionador (a for\u00e7a das ondas) n\u00e3o precisa de intelig\u00eancia.<\/p>\n<p>Nenhum organismo vivo \u00e9 alheio ao que lhe cerca. Todos interagem com o ambiente onde vivem, com outros integrantes de sua fam\u00edlia, grupo, popula\u00e7\u00e3o ou esp\u00e9cie, com outros seres vivos, sejam eles predadores, presas, hospedeiros, parasitas simbiontes, alimento, decompositores. Enfim, sua vida afeta tudo ao seu redor e por tudo \u00e9 afetada. Da mesma forma que os pedregulhos s\u00e3o afetados pelas ondas (entre outros fatores), os fatores que afetam um determinado ser vido podem agir sozinhos ou em conjunto, como agentes selecionadores, ou o que o jarg\u00e3o biol\u00f3gico chamaria de \u201cpress\u00f5es seletivas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Rubens Pazza<\/strong> \u00e9 bi\u00f3logo, mestre em Biologia Celular e doutor em Gen\u00e9tica e Evolu\u00e7\u00e3o. Atualmente \u00e9 professor da Universidade Federal de Vi\u00e7osa, campus de Rio Parana\u00edba e atua na \u00e1rea de Gen\u00e9tica Ecol\u00f3gica e Evolutiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como citar esse documento:<\/p>\n<p>Pazza, R. (2011). Sele\u00e7\u00e3o x Sorteio. Folha Biol\u00f3gica 2 (1): 2<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rubens Pazza Definitivamente, evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorre ao acaso. Mas afinal, o que torna a evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica n\u00e3o aleat\u00f3ria? Sem mesmo cunhar o termo \u201cEvolu\u00e7\u00e3o\u201d, Darwin nos explica que as esp\u00e9cies sofrem mudan\u00e7as ao longo das gera\u00e7\u00f5es, e que um processo chamado de \u201csele\u00e7\u00e3o natural\u201d atua escolhendo os indiv\u00edduos que transmitir\u00e3o suas caracter\u00edsticas aos descendentes. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":945,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[318],"tags":[326,325,91,158],"class_list":["post-297","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume-2","tag-acaso","tag-darwinismo","tag-evolucao","tag-selecao-natural"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/945"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=297"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/297\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":307,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/297\/revisions\/307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=297"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}