{"id":456,"date":"2015-04-13T08:38:33","date_gmt":"2015-04-13T11:38:33","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=456"},"modified":"2015-04-13T08:38:33","modified_gmt":"2015-04-13T11:38:33","slug":"um-poema-sobre-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=456","title":{"rendered":"Um poema sobre Ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Fl\u00e1via Fr\u00f3es de Motta Budant<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Imagine voc\u00ea que seu professor de ci\u00eancias (biologia, f\u00edsica ou qu\u00edmica) chega na sala com um novo texto sobre a mat\u00e9ria. Um texto que fala de animais. Que tamb\u00e9m fala a respeito da \u00f3ptica. E tamb\u00e9m sobre \u00e1tomos. Em que formato ele viria? Provavelmente em prosa, cheio de nomes gigantes e, dependendo da bondade do autor, com algumas figuras ilustrativas. Bom, talvez n\u00e3o fosse bem assim&#8230;<\/p>\n<p><strong>Ci\u00eancia em versos <\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de dois mil e cem anos vivia em Roma um sujeito chamado Lucr\u00e9cio, sobre o qual sabemos pouco. O mais seguro que temos \u00e9 a sua obra: um livro chamado <em>De Rerum Natura<\/em> \u2013 Sobre a natureza das coisas.\u00a0 Lucr\u00e9cio era seguidor de Epicuro, um fil\u00f3sofo grego que pregava a busca da felicidade atrav\u00e9s da dissolu\u00e7\u00e3o dos medos, como o medo da morte. S\u00e3o eles que nos prendem, que impedem que vivamos bem.\u00a0 Para os superarmos, precisamos conhecer o universo no qual estamos imersos, do qual somos uma pequena parte. Precisamos entender a natureza das coisas. Lucr\u00e9cio, que, como bom romano, pagava tributo \u00e0 cultura helen\u00edstica (da Gr\u00e9cia Antiga), decidiu fazer uma obra para divulgar essas ideias filos\u00f3ficas. E a fez \u2013 em versos. \u00c0 \u00e9poca, o verso pertencia n\u00e3o s\u00f3 ao conte\u00fado l\u00edrico, mas tamb\u00e9m ao \u00e9pico e ao did\u00e1tico, g\u00eanero ao qual pertence o <em>De Rerum Natura<\/em>.\u00a0 Ele cont\u00e9m quase oito mil versos, separados em seis livros (ou cantos, divis\u00f5es como cap\u00edtulos), que tangem v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento: f\u00edsica, qu\u00edmica, biologia, geografia, filosofia e \u2013 pasme \u2013 at\u00e9 teologia!<\/p>\n<p><strong>Mesmo sem v\u00ea-lo, ele deveria existir\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Os dois primeiros livros exp\u00f5em a f\u00edsica epicurista, herdeira de Dem\u00f3crito, o inventor da palavra \u00e1tomo (indivis\u00edvel, em grego).\u00a0 O \u00e1tomo \u00e9 reconhecido como menor parte da mat\u00e9ria, que n\u00e3o pode mais ser quebrada, e constituinte de tudo que existe: s\u00e3o as <em>semina rerum<\/em>, semente das coisas. Lucr\u00e9cio deriva suas conclus\u00f5es empiricamente, ou seja, por meio dos sentidos. Tudo \u00e9 feito de \u00e1tomos e de vazio, entrela\u00e7ados de maneira diferente, o que permite a diversidade assombrosa de seres e objetos que constituem nosso planeta, e quem sabe at\u00e9 outros mundos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Um-poema-sobre-ciencia.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-457\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Um-poema-sobre-ciencia.png\" alt=\"Um poema sobre ciencia\" width=\"298\" height=\"350\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Um-poema-sobre-ciencia.png 230w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/Um-poema-sobre-ciencia-85x100.png 85w\" sizes=\"auto, (max-width: 298px) 100vw, 298px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Fisionomia atribu\u00edda a Lucr\u00e9cio de Roma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Vida e morte: um ciclo infinito\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>O livro III \u00e9 sobre a natureza da alma e nele Lucr\u00e9cio empreende uma refuta\u00e7\u00e3o aos outros fil\u00f3sofos, como Arist\u00f3teles, a respeito da imortalidade da alma. Para o epicurista, a alma existe, mas \u00e9 mortal, como todo o resto do corpo. Ela \u00e9 material, \u00e9 feita de \u00e1tomos, e, por isso, tamb\u00e9m \u00e9 suscet\u00edvel ao perecimento. Assim, n\u00e3o devemos temer a morte: ela faz parte da Natureza e de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Paix\u00e3o x raz\u00e3o\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>O livro IV explica as imagens, as vis\u00f5es que temos das coisas. S\u00e3o como pel\u00edculas que se descolam da superf\u00edcie das coisas e atingem nossos olhos. Lucr\u00e9cio escreve, e de maneira bastante po\u00e9tica, tamb\u00e9m sobre as paix\u00f5es humanas e como devemos resistir a elas, afinal, nos deixam sem ju\u00edzo e sem pensar racionalmente (parece que n\u00e3o mudou muito).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Origens: a Terra dando seu testemunho\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Os livros V e VI tratam da origem do nosso planeta, de como os seres se desenvolveram, e do funcionamento dos fen\u00f4menos naturais \u2013 trov\u00f5es, terremotos, vulc\u00f5es e at\u00e9 o \u00edm\u00e3, com seu misterioso magnetismo.<\/p>\n<p><strong>No fim, o encantamento \u00e9 o que conta\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Bom, e falando sobre tudo isso, Lucr\u00e9cio acertou? Quanto ao conte\u00fado cient\u00edfico, pode-se dizer que sim e que n\u00e3o. Apesar de n\u00e3o ter microsc\u00f3pios e telesc\u00f3pios, muita coisa foi inferida corretamente pelo racioc\u00ednio e pela observa\u00e7\u00e3o. \u00a0O que deve ser reconhecido no poema, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 tanto o que foi confirmado pela ci\u00eancia moderna, mas a beleza com que Lucr\u00e9cio fala e explica os fen\u00f4menos.\u00a0 Sim, \u00e9 poss\u00edvel fazer um poema sobre ci\u00eancia. Desvendar o mundo em que vivemos significa apreci\u00e1-lo. Significa apreender e aprender sobre a natureza das coisas, de <em>rerum natura<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fl\u00e1via Fr\u00f3es de Motta Budant<\/strong> \u00e9 estudante de Gradua\u00e7\u00e3o em Letras Portugu\u00eas &#8211; Latim, na Universidade Federal do Paran\u00e1, com \u00eanfase em estudos da poesia latina.<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como citar esse documento:<\/p>\n<p>Budant, F.F.M. (2013). Um poema sobre ci\u00eancia. Folha biol\u00f3gica 4 (1): 1<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fl\u00e1via Fr\u00f3es de Motta Budant \u00a0 Imagine voc\u00ea que seu professor de ci\u00eancias (biologia, f\u00edsica ou qu\u00edmica) chega na sala com um novo texto sobre a mat\u00e9ria. Um texto que fala de animais. Que tamb\u00e9m fala a respeito da \u00f3ptica. E tamb\u00e9m sobre \u00e1tomos. Em que formato ele viria? Provavelmente em prosa, cheio de nomes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":945,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[347],"tags":[362,20,253,361,363],"class_list":["post-456","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-volume-4","tag-biologia","tag-ciencia","tag-lucrecio","tag-poema","tag-rerum-natura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/456","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/945"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=456"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/456\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":498,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/456\/revisions\/498"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=456"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=456"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=456"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}