{"id":459,"date":"2015-05-28T16:20:50","date_gmt":"2015-05-28T19:20:50","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=459"},"modified":"2015-08-03T11:10:13","modified_gmt":"2015-08-03T14:10:13","slug":"desconhecidos-e-ameacados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=459","title":{"rendered":"Desconhecidos e amea\u00e7ados"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Ana L\u00facia Tourinho<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 um opili\u00e3o?\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Essa quest\u00e3o \u00e9 bem frequente, mesmo entre alunos de classes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o das \u00e1reas biol\u00f3gicas e relacionadas. Esses aracn\u00eddeos muito abundantes e distribu\u00eddos no mundo todo s\u00e3o pouco conhecidos. Possuem h\u00e1bitos cr\u00edpticos e noturnos, atingem seu pico de diversidade em regi\u00f5es tropicais da Am\u00e9rica do Sul, principalmente o Brasil. Entretanto, diversas esp\u00e9cies brasileiras desses ocultos animais correm o risco de desaparecer do planeta antes mesmo de serem conhecidas.<\/p>\n<p><strong>Os opili\u00f5es s\u00e3o aracn\u00eddeos.\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Sim, eles parecem aranhas, mas n\u00e3o s\u00e3o. Assim como todas as aranhas, possuem o corpo dividido em dois segmentos, o anterior se chama prosomo ou cefalot\u00f3rax, e o segundo se chama opistosomo ou abd\u00f4men. Tamb\u00e9m compartilham quatro pares de pernas, um par de pedipalpos (estruturas que parecem pernas, mas s\u00e3o usadas para manusear objetos), e um par de quel\u00edceras (parte do aparelho bucal dos aracn\u00eddeos). Por\u00e9m eles n\u00e3o tecem teias porque n\u00e3o t\u00eam fiandeiras (estruturas respons\u00e1veis pela emiss\u00e3o dos fios de seda). Al\u00e9m disso, visualmente as duas regi\u00f5es do corpo dos opili\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o separadas por uma cintura como ocorre com o corpo das aranhas.\u00a0 Ao longo de sua evolu\u00e7\u00e3o, cinco dos segmentos da regi\u00e3o posterior do corpo do animal, o opistosomo, se fundiram \u00e0 regi\u00e3o anterior, o prosomo, formando uma carapa\u00e7a externa inteiri\u00e7a chamada de escudo dorsal. Por este motivo a divis\u00e3o de seu corpo em duas regi\u00f5es, s\u00f3 pode ser visualmente notada internamente. Diferentemente das aranhas, que possuem muitos olhos (de quatro a oito olhos), eles t\u00eam apenas um par de olhos medianos que est\u00e3o geralmente posicionados em uma pequena eleva\u00e7\u00e3o localizada na parte anterior de seu corpo, o c\u00f4moro ocular. Os olhos laterais presentes nas aranhas e escorpi\u00f5es est\u00e3o ausentes nos opili\u00f5es. Os opili\u00f5es possuem um par de gl\u00e2ndulas laterais (as gl\u00e2ndulas odor\u00edferas), tamb\u00e9m na parte anterior do corpo, e quando incomodados ou amea\u00e7ados liberam um cheiro no ambiente. Assim, \u00e9 f\u00e1cil saber se h\u00e1 um opili\u00e3o por perto se conhecemos esse odor.\u00a0 Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso, h\u00e1 ainda uma outra caracter\u00edstica interessante que torna os opili\u00f5es diferentes dos outros aracn\u00eddeos: eles t\u00eam p\u00eanis. \u00c9 isso mesmo! Eles s\u00e3o os \u00fanicos do grupo de aracn\u00eddeos em que os machos possuem um p\u00eanis para transfer\u00eancia direta de espermatoz\u00f3ides.\u00a0 Inofensivos aos humanos, os opili\u00f5es geralmente se escondem porque precisam de ambientes \u00famidos e com temperatura elevada para sobreviver. Isso acontece por que os opili\u00f5es perdem \u00e1gua com muita facilidade, e se forem expostos por tempo prolongado a ambientes secos e muito quentes n\u00e3o resistem e morrem. Por isso \u00e9 mais f\u00e1cil encontra-los\u00a0 \u00e0 noite, quando est\u00e3o se alimentando, locomovendo e procurando um parceiro para reprodu\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m por este motivo que os locais prediletos dos opili\u00f5es s\u00e3o cavernas, frestas de \u00e1rvores, entre pedras e nos pared\u00f5es rochosos, debaixo das pedras, das folhas e troncos ca\u00eddos no ch\u00e3o. Tamb\u00e9m s\u00e3o encontrados atr\u00e1s e nas concavidades das diferentes folhas de plantas dos sub-bosques florestais e at\u00e9 mesmo enterrados, ou atr\u00e1s das cascas das \u00e1rvores.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-461 aligncenter\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-2.png\" alt=\"foto 2\" width=\"281\" height=\"204\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-2.png 400w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-2-300x218.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-2-100x73.png 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 281px) 100vw, 281px\" \/><\/a><\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">Esquema anat\u00f4mico de um opili\u00e3o<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-460 aligncenter\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-1.png\" alt=\"foto 1\" width=\"390\" height=\"278\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-1.png 608w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-1-300x214.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-1-600x428.png 600w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-1-100x71.png 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\">\u00a0 Macho da esp\u00e9cie <em>Stygnus nogueirai<\/em> descrita por Ricardo Pinto da Rocha e Ana L\u00facia Tourinho em 2012. A descri\u00e7\u00e3o desta esp\u00e9cie foi publicada junto com outras 9 novas esp\u00e9cies na revista cient\u00edfica Zootaxa.<\/h5>\n<p>Eles podem ca\u00e7ar insetos e outros aracn\u00eddeos, mas em geral s\u00e3o generalistas, isso quer dizer que se alimentam dos recursos que estiverem dispon\u00edveis no momento, e s\u00e3o\u00a0 frequentemente observados se alimentando de mat\u00e9ria em decomposi\u00e7\u00e3o. Uma grande propor\u00e7\u00e3o do que \u00e9 produzido em florestas \u00e9 processado pelos organismos detrit\u00edvoros (aqueles que se alimentam de detritos), como muitas das esp\u00e9cies de opili\u00f5es, e muitas ordens de insetos. Portanto esses animais contribuem ativamente para a ciclagem dos nutrientes atrav\u00e9s da decomposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria org\u00e2nica acumulada na liteira (camada de folhas mortas acima do solo), desempenhando um importante papel no cen\u00e1rio ecol\u00f3gico.<\/p>\n<p><strong>Diversidade e endemismo\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Outra caracter\u00edstica importante dos opili\u00f5es \u00e9 o endemismo acentuado apresentado por quase todas as esp\u00e9cies. Esp\u00e9cies end\u00eamicas s\u00e3o aquelas que est\u00e3o distribu\u00eddas exclusivamente em um determinado local. Os n\u00edveis de universalidade de endemismo podem variar. Existem grupos end\u00eamicos de pequenas manchas florestais, serras e parques, at\u00e9 os end\u00eamicos de grandezas categ\u00f3ricas mais amplas como os biomas, continentes, regi\u00f5es zoogeogr\u00e1ficas e eco regi\u00f5es. Dados de pesquisas apontam os opili\u00f5es da Mata Atl\u00e2ntica como os animais com n\u00edveis de endemismos mais altos j\u00e1 registrados (97,8%). Apesar do endemismo acentuado, opili\u00f5es est\u00e3o espalhados pelo mundo todo. A diversidade de esp\u00e9cies de opili\u00f5es \u00e9 alta, existem cerca de 6.300 esp\u00e9cies conhecidas, mas a diversidade m\u00e1xima \u00e9 atingida na regi\u00e3o Neotropical, e cerca de 900 das esp\u00e9cies conhecidas s\u00e3o end\u00eamicas de biomas brasileiros, ou seja, s\u00e3o exclusivas destes biomas. Mas este n\u00famero est\u00e1 subestimado, os opili\u00f5es s\u00e3o pouco conhecidos at\u00e9 mesmo pela ci\u00eancia. Muitas esp\u00e9cies novas s\u00e3o encontradas em \u00e1reas reconhecidas como regi\u00f5es de maior diversidade de organismos do mundo, como a Amaz\u00f4nia e a Mata Atl\u00e2ntica. Por\u00e9m o n\u00famero de esp\u00e9cies novas encontradas na Amaz\u00f4nia \u00e9 surpreendentemente alto. Isto ocorre principalmente porque a fauna de opili\u00f5es da Mata Atl\u00e2ntica tem recebido mais aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores nos \u00faltimos 50 anos, j\u00e1 a Amaz\u00f4nia, o Cerrado s\u00e3o consideradas as regi\u00f5es com a fauna de opili\u00f5es mais pobremente conhecida do pa\u00eds. Mesmo assim, na Mata Atl\u00e2ntica o n\u00famero de esp\u00e9cies novas encontradas ainda \u00e9 considerado alto, nos \u00faltimos cinco anos pelo menos uma esp\u00e9cie nova, end\u00eamica da regi\u00e3o, foi descrita por ano.\u00a0O percentual de esp\u00e9cies novas encontradas por localidade amostral na Amaz\u00f4nia pode chegar a 50%, ou mais, dependendo da \u00e1rea amostrada. Em regi\u00f5es mais distantes e de dif\u00edcil acesso, os n\u00fameros por coleta chegam a 90%. Nas grandes cidades, por exemplo, Manaus, no estado do Amazonas, e Bel\u00e9m, no estado do Par\u00e1, receberam mais coletas nos \u00faltimos 50 anos, portanto o n\u00famero de esp\u00e9cies conhecidas nesses locais \u00e9 maior. No entanto, coletas recentes realizadas em fragmentos urbanos da floresta da Universidade Federal do Amazonas, na cidade de Manaus, atingem um percentual de 20% a 30% de esp\u00e9cies ainda desconhecidas para a ci\u00eancia.\u00a0 Cerca de 70% do territ\u00f3rio da Amaz\u00f4nia brasileira nunca recebeu uma visita cient\u00edfica seguida de coleta de opili\u00f5es. Espantosamente, essas localidades n\u00e3o incluem somente locais de dif\u00edcil acesso ou muito distantes das grandes metr\u00f3poles amaz\u00f4nicas. Um bom exemplo \u00e9 o trabalho recentemente realizado pela mestre em ci\u00eancias biol\u00f3gicas Larissa de Souza Lan\u00e7a na Fazenda Experimental da UFAM. A fazenda est\u00e1 localizada no km 38 da rodovia BR-174, e conta com uma grade de 24 km2, sendo 59 km de trilhas e 41 parcelas implementadas pelo Programa de Pesquisas em Biodiversidade. L\u00e1 foram coletadas 26 esp\u00e9cies de opili\u00f5es, sendo que 65% delas s\u00e3o prov\u00e1veis esp\u00e9cies ainda n\u00e3o descritas, ou seja, novas esp\u00e9cies para a ci\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Amea\u00e7a eminente\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Existem os dois lados nesta hist\u00f3ria de endemismo. Por um lado, as informa\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cies com \u00e1reas de distribui\u00e7\u00e3o extremamente restritas, juntamente a informa\u00e7\u00f5es obtidas atrav\u00e9s de estudos de sistem\u00e1tica e filogen\u00e9tica (classifica\u00e7\u00e3o e estudo das rela\u00e7\u00f5es de parentesco dos organismos), fornecem um entendimento maior dos eventos que alteraram o ambiente e acabaram por isolar as faunas levando \u00e0 especia\u00e7\u00e3o. Portanto, estudar os padr\u00f5es biogeogr\u00e1ficos \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para o resgate e melhor entendimento hist\u00f3rico dos eventos ocorridos no planeta, e para o estabelecimento e elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o ambientais. Mas por outro lado, esp\u00e9cies com \u00e1reas de distribui\u00e7\u00f5es muito restritas se tornam muito vulner\u00e1veis e pass\u00edveis de extin\u00e7\u00e3o.\u00a0 Infelizmente a expans\u00e3o progressiva do desmatamento das \u00e1reas florestais \u00e9 uma realidade, tamb\u00e9m representando uma amea\u00e7a para muitas esp\u00e9cies de opili\u00f5es. Esp\u00e9cies desconhecidas, que n\u00e3o est\u00e3o presentes em nenhuma cole\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do mundo, podem desaparecer antes mesmo que cheguem a ser descobertas pelos cientistas. Na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica brasileira temos o exemplo das florestas ao longo da BR-319. A rodovia que unia Manaus a Porto Velho foi constru\u00edda na d\u00e9cada de 70, durante o per\u00edodo da ditadura militar. Em 1988 ela ficou intransit\u00e1vel em consequ\u00eancia de sua degrada\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. O governo estadual do Amazonas, com o apoio Ministro dos Transportes e do presidente da \u00e9poca, Lu\u00eds In\u00e1cio Lula da Silva, decidiram retomar \u00e0s pressas, no meio do ano de 2005, o pol\u00eamico projeto de reconstru\u00e7\u00e3o da rodovia. O asfaltamento da BR-319 foi ent\u00e3o iniciado na \u00e9poca sem um Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relat\u00f3rio de Impacto ao Meio Ambiente (RIMA), como requerem as leis federais de licenciamento ambiental, apesar da tentativa, sem \u00eaxito, da ministra do meio ambiente da \u00e9poca, Marina Silva, de embargar a obra at\u00e9 que tais medidas legais fossem atendidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-3.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-462 aligncenter\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-3.png\" alt=\"foto 3\" width=\"436\" height=\"288\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-3.png 536w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-3-300x198.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/foto-3-100x66.png 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Interfl\u00favio Madeira-Purus no estado do Amazonas, na foto a floresta Amaz\u00f4nica cortada pela estrada BR-319. Cr\u00e9dito da Foto: Jos\u00e9 Luis Purri \u2013 PPBIO \u00a0http:\/\/ppbio.inpa.gov.br\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00f5es sobre a obra apressada e suas consequ\u00eancias socioecon\u00f4micas e ambientais foram bastante discutidas em jornais locais e publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de Philip Fearnside (Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia), mas hoje n\u00e3o se toca mais no assunto. A \u00e1rea em quest\u00e3o est\u00e1 situada ao sul do rio Amazonas, limitada pelos rios Amazonas, Madeira e Purus, e inclu\u00edda na \u00e1rea classificada como um dos grandes centros de endemismo Amaz\u00f4nico pelo historiador natural Alfred Russel Wallace, e posteriormente confirmada por diversos outros autores importantes, como o alem\u00e3o J\u00fcrgen Haffer, autor da teoria dos ref\u00fagios amaz\u00f4nicos. Al\u00e9m da fauna composta por muitas esp\u00e9cies novas o local possui \u00edndices elevados de riqueza de esp\u00e9cies, e importantes informa\u00e7\u00f5es acerca do endemismo de aracn\u00eddeos amaz\u00f4nicos, de mam\u00edferos e aves inventariados nos \u00faltimos cinco anos pelas equipes de grandes programas institucionais de biodiversidade como o Programa de Pesquisas em Biodiversidade\/PPBio e Rede GEOMA. Nas \u00e1reas pr\u00f3ximas aos Km 81 e 83 da rodovia encontramos a esp\u00e9cie <em>Fissiphallius tucupi<\/em>, segunda esp\u00e9cie de opili\u00e3o da fam\u00edlia Fissiphalliidae da Amaz\u00f4nia descrita em 2006 por Ana L\u00facia Tourinho e Abel P\u00e9rez, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia e da Universidade Federal do Rio de Janeiro\/UFRJ.\u00a0 Entre as cidades de Humait\u00e1 e Careiro Castanho n\u00e3o existem registros de opili\u00f5es al\u00e9m da nova esp\u00e9cie <em>F. tucupi<\/em>. Particularmente, esp\u00e9cies dos dois grupos citados possuem grande import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o tanto da hist\u00f3ria evolutiva dos opili\u00f5es como biogeogr\u00e1fica do grupo na regi\u00e3o Amaz\u00f4nica. Infelizmente as \u00e1reas do km 81 foram loteadas, as linhas que demarcavam as parcelas e transectos permanentes utilizados para amostragem em nosso invent\u00e1rio j\u00e1 haviam sido inclu\u00eddas nas divis\u00f5es do loteamento seis meses ap\u00f3s nossa coleta, ainda no ano de 2006. O programa de aceleramento do desenvolvimento nacional (PAC) vem realizando in\u00fameras obras com o objetivo de alavancar o desenvolvimento do pa\u00eds, atrav\u00e9s de constru\u00e7\u00f5es que objetivam, entre outros, garantir e expandir o suprimento de energia e a capacidade de transporte no pa\u00eds. Al\u00e9m dos projetos j\u00e1 em andamento como as pol\u00eamicas envolvendo a pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-319 e a constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Belo Monte no Rio Xing\u00fa, h\u00e1 planejamento de constru\u00e7\u00e3o e pavimenta\u00e7\u00e3o de in\u00fameras outras estradas e hidrel\u00e9tricas, bem como outros empreendimentos que geram um impacto negativo sobre a biota. A cria\u00e7\u00e3o de reservas na \u00e1rea de entorno dessas obras seria uma alternativa tanto para a persist\u00eancia de algumas dessas esp\u00e9cies, quanto para a conten\u00e7\u00e3o do desmatamento. Na verdade existe uma legisla\u00e7\u00e3o que regula todo esse processo, e para \u00e1reas desmatadas ou impactadas por empreendimentos desse porte h\u00e1 necessidade de estabelecimento de unidades de conserva\u00e7\u00e3o de acordo com a escala da \u00e1rea impactada. Entretanto, nem sempre as medidas mais adequadas s\u00e3o aplicadas e escolhidas para cada empreendimento. As decis\u00f5es requerem pareceres velozes, seguidas de tomadas de decis\u00f5es mais velozes ainda em fun\u00e7\u00e3o da pressa pol\u00edtica e dos montantes de recursos envolvidos. Existem discuss\u00f5es para implementa\u00e7\u00e3o de unidades de conserva\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, estas deixariam de fora \u00e1reas importantes, que nunca foram inventariadas por pesquisadores, e, portanto todo o seu potencial cient\u00edfico em termos de biodiversidade \u00e9 bastante desconhecido at\u00e9 mesmo pelos especialistas. Pondera\u00e7\u00f5es cient\u00edficas realizadas por institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e governamentais competentes, sempre envolvem equipes especializadas tanto na avalia\u00e7\u00e3o dos componentes biol\u00f3gicos como os sociais das regi\u00f5es, mas para executar an\u00e1lises desse cunho e prever medidas mitigat\u00f3rias geralmente \u00e9 necess\u00e1rio mais tempo, tempo esse que geralmente os respons\u00e1veis n\u00e3o est\u00e3o dispostos a dar. Caso as unidades de conserva\u00e7\u00e3o prometidas sejam concretizadas sem que haja previamente um planejamento por meio de consulta p\u00fablica, invent\u00e1rios cient\u00edficos e resultados de EIA\/ RIMA, dificilmente estas priorizar\u00e3o de maneira adequada os componentes biol\u00f3gicos e geogr\u00e1ficos locais e a popula\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica. As consultas p\u00fablicas n\u00e3o s\u00e3o bem divulgadas, e nem sempre todos os aspectos e impactos multifacetados s\u00e3o de fato apresentados nessas ocasi\u00f5es para a popula\u00e7\u00e3o. Na verdade, este deveria ser um evento onde a popula\u00e7\u00e3o de fato se engajasse, e a mesma tamb\u00e9m deveria ter uma alfabetiza\u00e7\u00e3o cient\u00edfica maior para que pudesse estar mais consciente de seus interesses nesse caso. Esta \u00faltima deveria ser colocada a par n\u00e3o apenas das vantagens, mas tamb\u00e9m das desvantagens, muitas vezes irrevers\u00edveis, de todo e qualquer planejamento desenvolvimentista para que pudesse exigir medidas mitigat\u00f3rias adequadas. In\u00fameras outras regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia, e do restante do Brasil, jamais foram amostradas por especialistas e se encontram nesta mesma situa\u00e7\u00e3o, a maioria delas ir\u00e1 desaparecer antes mesmo que alguns representantes importantes e desconhecidos sejam resgatados e depositados em cole\u00e7\u00f5es para pesquisas futuras.\u00a0 Tal informa\u00e7\u00e3o, uma vez perdida, estar\u00e1 perdida para sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ana L\u00facia Tourinho<\/strong> \u00e9 bi\u00f3loga, mestre em Zoologia e doutora em Ecologia. Atua no Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia, nos Programas de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Entomologia e em Ecologia.\u00a0 \u00c9 curadora assistente da Cole\u00e7\u00e3o Aracnol\u00f3gica do INPA e especialista em Aracn\u00eddeos, principalmente das ordens Opiliones, Ricinulei e Araneae<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como citar esse documento:<\/p>\n<p>Tourinho, A.L. (2013). Desconhecidos e Amea\u00e7ados. Folha biol\u00f3gica 4 (1): 2-3<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana L\u00facia Tourinho &nbsp; O que \u00e9 um opili\u00e3o?\u00a0\u00a0 Essa quest\u00e3o \u00e9 bem frequente, mesmo entre alunos de classes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o das \u00e1reas biol\u00f3gicas e relacionadas. Esses aracn\u00eddeos muito abundantes e distribu\u00eddos no mundo todo s\u00e3o pouco conhecidos. 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