{"id":474,"date":"2015-03-02T15:54:25","date_gmt":"2015-03-02T18:54:25","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=474"},"modified":"2020-09-10T06:51:41","modified_gmt":"2020-09-10T09:51:41","slug":"o-que-acontece-com-as-especies-quando-o-clima-muda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=474","title":{"rendered":"O que acontece com as esp\u00e9cies quando o clima muda?"},"content":{"rendered":"<p align=\"RIGHT\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>R\u00fabia Santos Fonseca<\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> Em ecologia denominamos comunidade como o conjunto de esp\u00e9cies que interagem entre si em uma \u00e1rea. Cada esp\u00e9cie apresenta um n\u00famero diferente de indiv\u00edduos, por isso na comunidade algumas esp\u00e9cies s\u00e3o raras (com poucos indiv\u00edduos) e outras comuns (muitos indiv\u00edduos). A presen\u00e7a das esp\u00e9cies em um local, assim como a sua abund\u00e2ncia, est\u00e1 relacionada a diversas caracter\u00edsticas essenciais para sua sobreviv\u00eancia, tais como precipita\u00e7\u00e3o, temperatura e recursos do ambiente. Muitas esp\u00e9cies apresentam distribui\u00e7\u00e3o restrita a uma pequena regi\u00e3o, enquanto outras ocorrem sobre boa parte da superf\u00edcie terrestre. Esses diferentes padr\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o s\u00e3o relacionados \u00e0s exig\u00eancias de cada esp\u00e9cie para a sua sobreviv\u00eancia, que \u00e9 o nicho dessa esp\u00e9cie; e quanto mais exigente for a esp\u00e9cie, menos lugares aptos \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o ela ter\u00e1. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> Em fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies com o clima, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem tornar o ambiente em que uma esp\u00e9cie ocorre inapropriado para a sua perman\u00eancia, e a esp\u00e9cie pode ser extinta ou pode buscar outros locais com condi\u00e7\u00f5es ideais para a sua sobre viv\u00eancia. Esse fen\u00f4meno, denominado migra\u00e7\u00e3o, j\u00e1 ocorreu muitas vezes durante o tempo em que a vida \u00e9 registrada na Terra, nos per\u00edodos glaciais e interglaciais. Nos per\u00edodos glaciais as esp\u00e9cies das regi\u00f5es temperadas deslocaram-se para a zona tropical, enquanto as esp\u00e9cies t\u00edpicas da zona tropical ficaram restritas a pequenos ref\u00fagios clim\u00e1ticos. Nos per\u00edodos interglaciais, as esp\u00e9cies das regi\u00f5es <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">temperadas retornaram para as suas \u00e1reas de origem, enquanto os ref\u00fagios tropicais se expandiram por toda a zona tropical, formando o padr\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o e de comunidades semelhante ao atual. Alguns exemplos de esp\u00e9cies que migraram para a regi\u00e3o tropical, fugindo do resfriamento no per\u00edodo glacial, foram os can\u00eddeos (os ancestrais do nosso lobo guar\u00e1) e fel\u00eddeos (ancestrais das nossas on\u00e7as). Essas altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ocorreram em per\u00edodos longos, por isso, apesar de muitas esp\u00e9cies se extinguirem ou especiarem, muitas outras foram capazes de migrar para ambientes favor\u00e1veis e assim sobreviver. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> Estamos em um per\u00edodo interglacial, caracterizado por um aumento na temperatura global. No entanto, atividades antr\u00f3picas t\u00eam promovido a eleva\u00e7\u00e3o da temperatura e altera\u00e7\u00f5es na precipita\u00e7\u00e3o em uma velocidade maior que a de evolu\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies, o que acarreta em perdas na biodiversidade. Os anf\u00edbios s\u00e3o animais especialmente sens\u00edveis a altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">principalmente na intensidade e frequ\u00eancia da precipita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, o primeiro registro comprovado de extin\u00e7\u00e3o pelas atuais mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais \u00e9 de um anf\u00edbio. O sapo dourado (<i>Bufo periglenes<\/i>), restrito a uma floresta nebulosa na Costa Rica, foi declarado como extinto em 1989, apenas 29 anos ap\u00f3s ser descoberto. Essa extin\u00e7\u00e3o foi atribu\u00edda a altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ocorridas em 1986 e 1987, que produziram um clima anormalmente quente e seco. Nesse per\u00edodo, <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">diversos outros anf\u00edbios tiveram suas popula\u00e7\u00f5es drasticamente reduzidas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> A sobreviv\u00eancia dos jacar\u00e9s e tartarugas tamb\u00e9m \u00e9 amea\u00e7ada pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Nessas esp\u00e9cies a temperatura do ninho determina o sexo dos filhotes e peque nas altera\u00e7\u00f5es na temperatura (&lt;2\u00b0C) podem modificar drasticamente o n\u00famero de machos e f\u00eameas nascidos. Um estudo desenvolvido com uma tartaruga de \u00e1gua doce norte americana (<i>Chrysemys picta<\/i>) demonstrou que um aumento na temperatura de 4\u00b0C eliminaria a produ\u00e7\u00e3o de machos, o que promoveria a extin\u00e7\u00e3o dessa esp\u00e9cie ap\u00f3s a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de f\u00eameas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m afetam as intera\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas. O comportamento fenol\u00f3gico das plantas (\u00e9poca e intensidade do brotamento, flora\u00e7\u00e3o e frutifica\u00e7\u00e3o) \u00e9 relacionado \u00e0 temperatura e precipita\u00e7\u00e3o. Por isso, altera\u00e7\u00f5es no clima podem promover mudan\u00e7as no per\u00edodo e na quantidade de brotos, flores e frutos produzidos. Altera\u00e7\u00f5es no brotamento podem afetar esp\u00e9cies de herb\u00edvoros, al\u00e9m de alterar as taxas locais de capta\u00e7\u00e3o de CO2. Mas as varia\u00e7\u00f5es na flora\u00e7\u00e3o e frutifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais preocupantes para a sobreviv\u00eancia das esp\u00e9cies de polinizadores e dispersores, pois essas intera\u00e7\u00f5es s\u00e3o mais espec\u00edficas; h\u00e1 tipos de flores e de frutos para cada grupo de polinizadores ou dispersores. Por isso, para a manuten\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es de polinizadores e dispersores em uma comunidade \u00e9 necess\u00e1rio que flores e frutos sejam produzidos durante todo o ano. Altera\u00e7\u00f5es no comportamento fenol\u00f3gico de muitas plantas j\u00e1 foram observadas; em alguns ambientes foram registrados per\u00edodos de incoer\u00eancia da flora\u00e7\u00e3o com a presen\u00e7a dos polinizadores, fato que influencia diretamente na sobreviv\u00eancia dessa planta, do polinizador e dos dispersores. Quando lembramos que as comunidades s\u00e3o regidas por redes de intera\u00e7\u00f5es e que todas as esp\u00e9cies est\u00e3o interligadas, o problema toma propor\u00e7\u00f5es muito maiores. <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/o-que-acontece-com-as-especies-quando-o-clima-muda.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"  wp-image-475 aligncenter\" src=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/o-que-acontece-com-as-especies-quando-o-clima-muda.png\" alt=\"o que acontece com as especies quando o clima muda?\" width=\"429\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/o-que-acontece-com-as-especies-quando-o-clima-muda.png 313w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/o-que-acontece-com-as-especies-quando-o-clima-muda-300x241.png 300w, https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/o-que-acontece-com-as-especies-quando-o-clima-muda-100x80.png 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 429px) 100vw, 429px\" \/><\/a><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o influenciam apenas esp\u00e9cies, podem influenciar todo um bioma. Eleva\u00e7\u00f5es na temperatura e diminui\u00e7\u00f5es na precipita\u00e7\u00e3o t\u00eam tornado diversos ambientes mais \u00e1ridos, promovendo inclusive a desertifica\u00e7\u00e3o de muitas \u00e1reas no nordeste do Brasil. Devido aos indiscut\u00edveis efeitos sobre os ecossistemas naturais, modelos matem\u00e1ticos baseados no nicho foram desenvolvidos e usados para prever a distribui\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies e comunidades nos pr\u00f3ximos anos. Esses modelos demonstram quadros muitas vezes preocupantes, com diversas esp\u00e9cies diminuindo a sua \u00e1rea de ocorr\u00eancia, transformando grandes \u00e1reas de ocorr\u00eancias cont\u00ednuas em \u00e1reas pequenas e disjuntas. Outras esp\u00e9cies, entretanto, podem aumentar muito a sua distribui\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso de <i>Lutzomyia whitmani<\/i>, um mosquito vetor da leishmaniose. Se isso ocorrer, a leishmaniose pode expandir para diversas \u00e1reas anteriormente livres dessa zoonose. Em rela\u00e7\u00e3o aos efeitos sobre os biomas, estudos prop\u00f5em a expans\u00e3o do cerrado para \u00e1reas sul do Brasil que v\u00e3o se tornar in\u00f3spitas para a floresta atl\u00e2ntica, o que pode afetar a sobreviv\u00eancia das florestas de arauc\u00e1ria. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"> As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas globais n\u00e3o atuam sozinhas na redu\u00e7\u00e3o da biodiversidade, outras altera\u00e7\u00f5es promovidas pelo homem, como destrui\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o de habitats e invas\u00e3o biol\u00f3gica, tamb\u00e9m tem grande influ\u00eancia. Nessa realidade, a cria\u00e7\u00e3o de novas \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o, de corredores ecol\u00f3gicos, al\u00e9m do est\u00edmulo \u00e0 redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de CO2 e a programas de sequestro de carbono s\u00e3o a\u00e7\u00f5es determinantes para a preserva\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\"><b>R\u00fabia Santos Fonseca<\/b> \u00e9 bi\u00f3loga, mestre e doutora em Bot\u00e2nica pela UFV. Desenvolve pesquisas na \u00e1rea de fenologia e biologia reprodutiva de plantas nativas. <\/span><\/p>\n<hr>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Como citar esse documento:<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">Fonseca, R.S. (2013). O que acontece com as esp\u00e9cies quando o clima muda? Folha biol\u00f3gica 4 (Edi\u00e7\u00e3o especial 2-3): 2<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>R\u00fabia Santos Fonseca Em ecologia denominamos comunidade como o conjunto de esp\u00e9cies que interagem entre si em uma \u00e1rea. Cada esp\u00e9cie apresenta um n\u00famero diferente de indiv\u00edduos, por isso na comunidade algumas esp\u00e9cies s\u00e3o raras (com poucos indiv\u00edduos) e outras comuns (muitos indiv\u00edduos). 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