{"id":992,"date":"2019-12-11T12:54:22","date_gmt":"2019-12-11T15:54:22","guid":{"rendered":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=992"},"modified":"2019-12-11T13:04:39","modified_gmt":"2019-12-11T16:04:39","slug":"vermelho-e-a-cor-do-raro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhabiologica.crp.ufv.br\/?p=992","title":{"rendered":"Vermelho \u00e9 a cor do raro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Correspondendo a menos de 2% da popula\u00e7\u00e3o mundial, os ruivos marcam sua presen\u00e7a no mundo e os cabelos avermelhados (rutilismo) causam uma abund\u00e2ncia de mitos e medos desde tempos remotos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  A mitologia grega que diz que quando um ruivo morre, transforma-se em vampiro. J\u00e1 a cultura antiga alem\u00e3 considerava os ruivos bruxos.  Os eg\u00edpcios consideravam que a cor vermelha trazia azar e por isso queimavam mulheres ruivas em rituais que tinham como objetivo extinguir os cabelos avermelhados. No s\u00e9culo XVI se acreditava que a gordura corporal de um ruivo era essencial para a elabora\u00e7\u00e3o de po\u00e7\u00f5es, e mesmo na iconografia da Igreja Cat\u00f3lica Romana geralmente Eva \u00e9 representada como uma mulher ruiva, simbolizando o pecado, e seu filho Caim, tamb\u00e9m ruivo, por ter matado seu irm\u00e3o.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Mas verdade seja dita, nenhuma destas \u201clendas\u201d s\u00e3o verdadeiras, sendo fruto da curiosidade a respeito de uma bela varia\u00e7\u00e3o da natureza humana. Em pequenas cidades formadas por poucas fam\u00edlias, o gene que causa o tom avermelhado nos cabelos pode ser numericamente dominante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  A origem do fen\u00f3tipo \u00e9 incerta. Acreditava-se que seu surgimento fora h\u00e1 cerca de 100 mil anos atr\u00e1s, com a origem no Homem de Neandertal. Segundo essa teoria, os ruivos teriam surgido antes que o homem tivesse migrado para a Europa. Entretanto, um estudo feito na Universidade de Edimburgo (Esc\u00f3cia) liderada pelo Prof. Jonathan Rees, encontrou poucas evid\u00eancias de que a pele branca e o cabelo ruivo fossem realmente uma vantagem adaptativa na evolu\u00e7\u00e3o humana fora da \u00c1frica.  <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Esse estudo foi realizado atrav\u00e9s de an\u00e1lises dos genes relacionados ao cabelo <br> ruivo, a partir do qual p\u00f4de-se verificar as mudan\u00e7as das prote\u00ednas que produzem a cor do nosso cabelo. Quando o gene muda, o amino\u00e1cido na prote\u00edna formada tamb\u00e9m pode mudar, e a\u00ed surgem as varia\u00e7\u00f5es que enxergamos nos organismos, ou seja, as madeixas avermelhadas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Um gene \u00e9 formado por uma sequ\u00eancia de mol\u00e9culas chamadas &#8220;bases&#8221;. Elas s\u00e3o formadas de carbono, oxig\u00eanio e nitrog\u00eanio, e por isso, s\u00e3o chamadas de bases nitrogenadas. A cada tr\u00eas bases no DNA, temos um amino\u00e1cido (bloco formador das prote\u00ednas), e chamamos essa trinca de c\u00f3don. As duas primeiras bases de um c\u00f3don s\u00e3o cruciais para a codifica\u00e7\u00e3o de um amino\u00e1cido, mas mudan\u00e7as na terceira base nem sempre alteram o resultado final de uma prote\u00edna. Estudando as mudan\u00e7as provocadas na terceira base, comparadas \u00e0s mudan\u00e7as provocadas pelas duas primeiras bases, a equipe do Prof. Rees descobriu quais caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas s\u00e3o resultado da sele\u00e7\u00e3o natural e quais s\u00e3o meros frutos do acaso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Foi o que aconteceu com o gene do cabelo ruivo. N\u00e3o h\u00e1 evid\u00eancia de sele\u00e7\u00e3o natural sobre esta caracter\u00edstica. A cor do cabelo, assim como o da pele, vem do pigmento melanina, podendo ser de dois tipos. Um dos tipos de melanina \u00e9 a eumelanina, que pode ser marrom ou preta, e o outro tipo \u00e9 a feomelanina, que pode ser vermelha ou amarela. A cor da pele e do cabelo de cada um de n\u00f3s \u00e9 o resultado da mistura dos dois tipos de melanina. Pessoas brancas produzem menos melanina que pessoas morenas. O cabelo preto \u00e9 composto quase que unicamente de eumelanina, enquanto o cabelo ruivo possui quase 100% de feomelanina. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  O gene respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o da melanina \u00e9 chamado MC1R e se localiza no par cromoss\u00f4mico 16 (o ser humano possui 23 pares de cromossomos, que s\u00e3o as mol\u00e9culas de DNA que herdamos de nossos pais e de nossas m\u00e3es). A equipe de dermatologistas do Prof. Rees descobriu, em 1997, que todos os ruivos apresentam variantes nesta regi\u00e3o do genoma (MC1R). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Cientistas da Universidade de Louisville, no Kentucky (EUA) comprovaram em 2002 o que os anestesistas j\u00e1 supunham h\u00e1 tempos: os ruivos s\u00e3o mais tolerantes a anestesia. O estudo realizado com 10 mulheres ruivas mostrou que \u00e9 necess\u00e1rio 20% a mais de anestesia para desacordar uma ruiva, no entanto n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as ruivas que exibem essa toler\u00e2ncia. Em 2004, um estudo com homens ruivos tamb\u00e9m chegou a estes resultados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Para se ter um filho ruivo \u00e9 necess\u00e1rio que ambos os pais tenham uma das cinco varia\u00e7\u00f5es do gene MC1R e que essas sejam herdadas pelo seu filho. Caso s\u00f3 um dos pais apresente a varia\u00e7\u00e3o, existe uma chance de seu filho ser portador do gene variante e deste ter filhos ruivos, se casado com uma portadora da varia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">  Atualmente, a Esc\u00f3cia \u00e9 a maior detentora de pessoas ruivas: calcula-se que 10 a 13% da popula\u00e7\u00e3o escocesa seja ruiva. No Brasil estima-se que os ruivos representem menos de 1% da popula\u00e7\u00e3o. Dizem que os ruivos entrar\u00e3o em extin\u00e7\u00e3o at\u00e9 2060, mais isso n\u00e3o passa de mais uma lenda, afinal o gene do rutilismo \u00e9 recessivo e pode &#8220;passar despercebido&#8221; nas fam\u00edlias, surgindo, ap\u00f3s varias gera\u00e7\u00f5es de morenos e loiros na fam\u00edlia, uma crian\u00e7a ruiva. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Jo\u00e3o Paulo de Morais<\/strong> \u00e9 acad\u00eamico do curso de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas da Universidade Federal de Vi\u00e7osa, campus de Rio Parana\u00edba e \u00e9 ruivo. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correspondendo a menos de 2% da popula\u00e7\u00e3o mundial, os ruivos marcam sua presen\u00e7a no mundo e os cabelos avermelhados (rutilismo) causam uma abund\u00e2ncia de mitos e medos desde tempos remotos. A mitologia grega que diz que quando um ruivo morre, transforma-se em vampiro. J\u00e1 a cultura antiga alem\u00e3 considerava os ruivos bruxos. 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